A entropia sónica de Aphex Twin

27 DEZEMBRO, 2016 -

Mentiria se tentasse esconder a minha felicidade face às confirmações para a próxima edição do NOS Primavera Sound. Richard David James. Richard D. James. Aphex Twin. AFX. O que quiserem. Comentava há uns tempos que seria interessante falar-se sobre o seu regresso à música, e eis que é anunciada a sua presença em Portugal, no próximo Junho. Fado ou não, uso este desabafo como tentativa de expressão (ou explicação) da minha satisfação com a sua vinda.

Richard D. James, distanciado do seu pseudónimo Aphex Twin, desde 2001, data de lançamento de DrukQs (Drugs? Drug use? Quantas interpretações…), quebrou em 2014 o seu silêncio com o aclamado Syro, um álbum de eletrónica caracterizado pela sua variedade melódica, instrumental e riqueza na composição. Desde então temos só visto prolificidade. E não a prolificidade vulgar que muito se vê na música de hoje em dia, em que músicos se esquecem que “mais” não é melhor. Neste caso, “mais” deixa-nos a sonhar com o que se avizinha. Este ano lançou Cheetah, que vem como uma orgânica evolução do apresentado em Syro, sendo mais acessível.

Ora, para quem não está familiarizado com o nome (ou cara, que aterroriza os sonhos de todas as crianças que vêm a capa de …I Care Because You Do ou Richard D. James), não devem ser completamente estranhas Avril 14 ou Windowlicker. A primeira é para mim uma das mais belas expressões de nostalgia que a música consegue inferir – subjetivismo, claro –, e fá-lo somente através da repetição de simples notas em piano confinadas a uma fina camada de fundo “contaminada” de ruido. A segunda, um agregado tecnológico de batidas que vão e voltam, constantemente apanhando-nos desprevenidos.

O som do produtor britânico não é confundível. Simultaneamente começou a sua carreira a lançar, enquanto AFX, a coletânea dos Eps de acid house e techno, Analogue Bubblebath, e, enquanto Aphex Twin, o exímio álbum de eletrónica ambiente Selected Ambient Works 85-92. Este último talvez o álbum mais interessante para quem procure cultivar-se acerca das multitudes de James. Selected Ambient Works 85-92 permite-nos alcançar uma harmonia sónica pela conciliação atmosférica da leveza dos sintetizadores com as batidas programadas (estas ora distantes, ora centro da melodia). Tha e Ptolemy são dos melhores indicadores dessa dictomia no álbum, saltado da dança ligeira da primeira para o som vivaço e funky da segunda.

Com o sucessor Selected Ambient Works Vol. II, James foca-se estritamente no ambiente, criando sonoridades mais abstratas, que nos conduzem muitas vezes aos trabalhos de Bian Eno. Ao longo da audição, este é um álbum que nos permite passar por uma variedade de sentimentos, muito graças à forma como as músicas são apresentadas, distantes na sua génese mas complexas na articulação dos elementos. De nostalgia a medo, este conturba-nos com a diversidade sónica que nos transmite. Se #3 nos transporta para memorias passadas, a imediatamente seguinte #4 leva-nos para a mais negra floresta, um assalto constante à nossa segurança, como se num pesadelo Freddy Krueger’iano acordássemos; #20 traz consigo paz e calma, um digestivo para uma audição que se requer atenta – imagino eu um campo de flores de Hokkaido, coberto de púrpura, fonte da tranquilidade.

A sua capacidade de intercalar diferentes sonoridades nas produções é algo que se reflete ao longo dos anos e dos álbuns lançados. Uma peculiaridade, que é o que torna James um dos mais importantes produtores atualmente, é a quebra rítmica nos padrões das batidas. Não estamos à espera e é interessante tentar compreender, o que nos deixa fixados. Um primo exemplo disso é quiçá, em Richard D. James, Yellow Calx (oiço um bico de fogão a acender? Ou um taser em contacto com a pele?) ou, mais uma vez, o single Windowlicker, que consegue manter-se suave ao ouvido apesar do constante rebobinar e da sua transfiguração na final.

A arte visual exerce também um papel importante para a conceptualização daquilo que é o trabalho de Aphex Twin. Para além do espetáculo de luzes das atuações ao vivo, James tem uma abordagem bastante experimental na concretização de videoclips. A mais conhecida é provavelmente a mudança facial de todas as figuras femininas do vídeo de Windowlicker, que passam a ter a cara do produtor no final da música. Esta recorrente utilização da sua cara advém do facto de James ter-se entusiasmado ao querer contrariar a “moda” de que, em música techno, não ser suposto os produtores “darem a cara”, para assim não serem reconhecidos pelo seu aspeto, mas pelo seu som, e não deverem utilizar nas capas dos álbuns fotografias/representações suas.

Para além dos videoclips, Rubber Johnny é uma curta realizada por Chris Cunningham e conceptualizada e escrita por Aphex Twin. Visualmente, durante os seis minutos de decorrencia, e muito pela forma como foi editada, esta parece emular aquilo que o produtor tenta transmitir com a música que faz. Este é um filme que, segundo o realizador e frequente colaborador de James, tenta reproduzir um raver a metamorfosear-se com a música, utilizando um ser hidrocefálico numa cadeira de rodas. Fá-lo em negativo e parece de certa forma perturbante mas simultaneamente, o modo como a entropia é gerada revela-se fascinante, particularmente por ser acompanhado por música do produtor.

Pelo seu trabalho e introspeção que este é capaz de comocionar, e ainda pela influência que tem na forma como a eletrónica se veio a desenvolver, Richard David James é então um dos nomes mais respeitados no meio, pelo que convido todos a deixarem-se imergir pela sua sonoridade e tirar as suas próprias conclusões. Aguardo ansiosamente a próxima primavera. Que mais boas novas destas nos sejam apresentadas no ano que se aproxima.

Texto de Sara Costa Dias

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Os dias 8, 9, e 10 de junho de 2017 trazem mais um NOS Primavera Sound à cidade d

O Primavera Sound Barcelona decorreu nos passados dias 1, 2, e 3 de Junho, naque

O Parque da Cidade preparava-se para o último dia deste trio de jornadas recheadas de música muit