A despedida enaltecedora dos Brand New em ‘Science Fiction’

18 OUTUBRO, 2017 -

Toda a música é emocional. Seja por comocionar o ouvinte ou por em si expressar os sentimentos do seu compositor. Mas nos anos 80 e 90 começou a categorizar-se com esse atributo – emocional, ou emo – às bandas de rock e hardcore cujas letras contivessem carácter confessional. É uma caraterização redutora, mas que se prolonga até os dias de hoje. O género, com o passar das décadas, sofreu alterações, tendo o auge da sua comercialização sido no meio dos anos 2000, em que bandas mais cénicas, como Fall Out Boy e My Chemical Romance, provocaram uma translação daquilo que seria um estilo de música para um estilo de vida. Os Estados Unidos foram assolados por longas franjas de cabelos esticados, unhas pretas e cintos com picos. O carácter confessional passou a ser atribuído à angústia e rebelião adolescente. “Emo” passou a ser uma moda associada a uma forma de estar, tendo a música ficado de parte. Mas houve bandas que procurando distanciar-se de toda esta fase idiossincrática continuaram a fazer música intimista, resistido à mudança das tendências e estabelecendo a sua presença para lá de uma década. Os Brand New são um dos mais importantes e relevantes exemplos disso na atualidade.

Não tendo em Portugal a dimensão que têm no seu país natal, os Brand New são já uma banda da velha guarda no estilo em que se inserem. Lançaram-se em 2001, com “Your Favourite Weapon”, num registo que não voltaram a pegar em mais nenhum dos seus álbuns, mais leviano, pop punk-ish. A sua relevância surgiu com o “Deja Entendu”, dois anos depois do primeiro lançamento, e “The Devil and God Are Raging Inside Me”, de 2005. A voz de Jesse Lacey, as cordas tristes e o ocasional screamo ressoaram com um público que tem desde então vindo a acompanhar a banda. Em 2009 lançaram ainda Daisy, mas a consistência dos seus lançamentos termina aí. Silenciando-se por quase dez anos, em 2016 anunciaram um reencontro para um novo – e final – álbum, que lançaram em Agosto deste ano, chamado “Science Fiction”.

Inicialmente tratado como LP5, foi enviado secretamente via CD a 500 fãs da banda. Este CD só com um track de 61 minutos, cujo nome são as coordenadas da Devil’s Tower, em Wyoming (onde foi filmado o filme “Close Encounters of The Third Kind”) e com um livrete com uma passagem solta do filme “2001: a Space Odyssey”, foi o meio de confirmação do álbum para vir e dica inicial do nome que o mesmo viria a tomar.

Em “Science Fiction” tudo parece curado ao pormenor. Tratando-se do legado final da banda, surge a modos de elogia, com constantes menções e referencias tanto à restante discografia do grupo como ao seu terminus. Tematicamente, Lacey mantem a tempestividade a que habituou o público, concentrando-se muito na sua própria depressão e falsa felicidade, na dificuldade em expressar-se fora desse registo e na pressão de fazer música. Estes sentimentos são muitas vezes abordados metaforicamente através dos elementos fogo e água, com o primeiro associado a momentos de iluminação e liberdade (“It lit me up like a torch on a pitch black night / Like an ember in the needles of a dried out pine”), e o segundo associado a afundamento (“For the good / Of all man / Hold me down / Underwater and don’t let me up again”), sendo este um grande ponto de ligação com o álbum antecessor, “Daisy”.

“Lit Me Up” abre o álbum com uma conversa gravada entre um paciente e um psicólogo, acerca de um sonho. No início da gravação é referenciado que esta ocorreu após cerca de 400 horas de terapia intensiva, o que muitos fãs da banda atribuíram ao tempo utilizado para a realização do álbum, surgindo como um interessante mote introdutório para o álbum. A transição para a música em si faz-se em downtempo, mantendo-se a mesma assim até ao fim, num impasse em que Lacey revolve em torno da iluminação, sugerindo a terapia como meio de voltar a ver a luz, terapia essa que para a banda simboliza o trabalho depositado para o lançamento do LP. É de notar ainda a capacidade que os Brand New revelam logo neste primeiro tema de fazerem um álbum estilisticamente semelhante e em tudo coeso com o resto da discografia, sem se deixarem datar tecnicamente, não ficando colados ao som que entregaram há dez anos atrás.

Segue-se “Can’t Get It Out” que, começando com uma alusão ao final da banda, reflete a dificuldade de fazer passar liricamente uma mensagem esperançosa, em vez de sombria. Da mesma forma o faz “Same Logic/Teeth”, o tema que vocalmente mais acompanha a frustração de Lacey e a culpa a ela associada. “Waste”, num registo mais monótono, descreve uma conversa com o passado, que sugere a superação das barreiras nas duas músicas previamente mencionadas.

Nas canções de títulos numéricos – “137” e “451” – Lacey torna-se politico. Criticando a intervenção nuclear humana, utiliza o título da primeira para relembrar os desastres nucleares ocorridos que levaram ao surgimento de um isótopo radioativo nefasto nunca antes havia sido registado – césio-137; a segunda encapsula o romance “Fahrenheit 451”, e satiriza a apatia da sociedade perante os problemas do mundo real. A sonoridade groovy e de certa forma jocosa utilizada neste tema ajuda a iterar a mensagem de Lacey: por trás deste som mais animado esconde-se um mundo conturbado, que muitos optam por não ver, rendendo-se à efemeridade entretenimento.

“Out Of Mana”, o track mais urgente de todo o álbum, vai buscar uma temática ainda não mencionada, a religião. O conflito ideológico de Lacey revê-se nesta música por meio de um videojogo, onde Deus é referido de certa forma ironicamente enquanto o “player one” de vidas infinitas, que toda a gente bajula. Este conflito já do passado, é em muitos dos temas do álbum reavivado – “get out of your knees” é recorrente meio de rejeição à oração -, mas é em “Could Never Be Heaven” e “Desert” que Lacey explica o seu distanciamento, não propriamente da sua fé, mas da errática interpretação da religião que se faz atualmente.

O fim do álbum chega com “Batter Up”. “Batter Up” é uma baladona, um desabar emocional, repleto de vozes uníssono, que faz todo o sentido no álbum em que se insere. O álbum e a banda chegam ao fim, e nesse final Lacey apela à compreensão e conforto com o mesmo; se o final chega é porque o prolongamento do passado não faria sentido no presente da ação.

Toda esta informação, toda esta estrutura e conexão, não passaria com o impacto suscitado por “Science Fiction” não fosse o instrumental que o acompanha. As guitarras oscilam entre os padrões acústicos e os riffs desgastantes e distorcidos, o que resulta brilhantemente quando pensando no peso emocional requerido com a sua audição. Os Brand New nunca haviam confiado na guitarra acústica da maneira como o fazem aqui, em que parece uma quarta voz por traz das palavras do vocalista e do seu back-up. Não se pode deixar de parabenizar os arranjos, a produção e a masterização do álbum. A banda reavivou-se e simultaneamente transformou o seu rock, num panorama em que este tipo de música, particularmente as influências de post-hardcore, cada vez estão mais esmorecidas.

A era dos Brand New chega ao fim, deixando lágrimas pendentes, mas acima de tudo orgulho, seja pela racionalidade da tomada dessa decisão, seja pela mesma vir acompanhada de uma das melhores cartas de despedida de rock moderno; uma banda que enalteceu todo o seu percurso no momento final e que nele se elevou artisticamente, ultrapassando todas as expetativas. Fica então a gratidão aos quatro virtuosos que deixarão certamente saudades a muitos.

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