A cultura como herança e destino

21 DEZEMBRO, 2016 -

“La culture est l’heritage de la noblesse du monde (…)”
André Malraux (1901-1976)

Escrevo porque penso nos outros. Esse lastro de luz e treva que o homem vai semeando ao longo do seu trajecto na História é a condição e a condenação de ser livre ou lutar por essa liberdade tão intrínseca às nossas acções no mundo. 

No limite, balançamos entre esperança (vontade) e agonia (tragédia). O seu entretanto é o simples facto de habitar a possibilidade. Atrevo-me a dizer que o homem sempre foi uma espécie essencialmente ‘cultural’, isto é criador no sentido de se equiparar às duas dimensões que jamais compreendeu e que desafiam permanentemente a sua inteligência e a sua ignorância: falo de Deus e da Natureza. 

Construir uma lança ou uma cana de pesca para subsistir é tão genial (do seu radical grego, «criar» ou «criação») como a introdução dos politeísmos nas primeiras civilizações complexas, utilizar o fogo não para caçar mas para conviver no calor de uma refeição é tão revolucionário como escrever as primeiras epopeias que a mão humana registou, inventar a roda é um acto, só por si, equivalente a toda a música de Bach, Beethoven ou Mozart. A tecnologia é um instrumento que permite ao homem ultrapassar a ausência desoladora de uma entidade absoluta ou trans-histórica. 

E a técnica reside tanto na vara de Moisés como na ideia de democracia ou, na nossa época, aos telemóveis inteligentes, aos computadores, às televisões e às câmaras fotográficas e de vídeo, que funcionam como extensões do olhar abrangente de Deus. Mas a tecnologia sem humanidade é uma catástrofe e a humanidade sem tecnologia uma raiz que seca no grande caudal da nossa existência. Então perguntemos: ser culto é ser bárbaro? ter conhecimento implica ter uma ética inabalável? um doutor terá maior propensão a resolver uma equação de elevado grau do que uma criança? Lembro, porém, que Jesus era filho de um carpinteiro e mestre de curiosos pescadores ou que Sócrates costumava deambular pelas ruas de Atenas com vestes andrajosas. 

Acredito, de alguma forma (mas sem fórmula), que o pensamento é sempre um fenómeno radical e orgânico. E nem poderia ser de outra maneira porque pensar implica um diálogo consigo mesmo organizado pelo silêncio que jorra das ideias. O mundo não se pensa sem que o pensador esteja estranhamente longe, quase suspenso da realidade e dos sentidos. 

E no entanto, pensar não é um ofício, mas uma intuição rebelde do espírito. Sim, falo de espírito num tempo de máquinas e de resultados e de estatísticas que reduzem o papel do humano à categoria inquestionável de ‘trabalhador’ num sistema dominado por métodos de «racionalização» e «produção» em série. A vida é agora uma fábrica. 

Falo, mais especificamente, de «nobreza de espírito», essa expressão dourada que extraio do ensaio fundador de Rob Riemen. Não a personalidade (que todo temos) ou o carácter (moldável às circunstâncias), mas a união entre a razão e a sensibilidade, a inteligência à ética, o poético e o estético. É o ideal clássico e renascentista personificado no seu máximo esplendor nas figuras de Espinosa (brilhante filósofo e judeu perseguido num tempo de intolerância religiosa e política), Goethe (enciclopédia viva, panteísta, valor supremo do Romantismo, autor da versão mais perfeita do «Fausto») e Thomas Mann (um dos últimos representantes da grande tradição romanesca na literatura ocidental, um homem que opôs a vertigem da lucidez à voracidade do nazismo). 

Em Portugal, invoco a excelência luminosa de pessoas (no verdadeiro sentido da palavra) como Tolentino Mendonça, Frei Bento Domingues, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luís, Maria João Pires, Manoel de Oliveira, Manuel António Pina, Frederico Lourenço, Eduardo Lourenço ou D. Manuel Clemente, que contribuíram decisivamente para a elevação e reabilitação desse fundo demasiado humano: ser livre, reflectir, fazer, com o arado revolvendo o seio da terra do qual brota esse nome enigmático e oblíquo: cultura, da qual André Malraux dirá ser a ‘herança da nobreza do mundo’. 

Mas quem ou o quê realmente a herdará? Aleppo sangra na mesma proporção que Heidegger jamais terá preenchido o vazio da pergunta de Celan, que ainda hoje causa uma indelével impressão – porquê a barbárie? O anjo salva e o anjo extermina. A sua luz cobre a sua escuridão. O nosso rosto será a vergonha de Deus? O homem foi e é e continuará a ser. Estamos condenados a ser cultos. Desde o momento em que temos fome e sobrevivemos até ao super-homem que a morte deverá ultrapassar. 

Texto de: Pedro Marques Pinto
Imagem de artigo: Pintura de Zurbaran, nature morte avec citrons, oranges et roses (1633)

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