‘A Civilização do Espetáculo’ denuncia o espetáculo em que vivemos

7 AGOSTO, 2017 -

No auge de uma vida literária, académica, cultural, e política vivida, o peruano Mario Vargas Llosa contemplou a atualidade com uma obra de seu título “A Civilização do Espetáculo“, da Quetzal Editores. Llosa nasceu a 28 de março de 1936 na cidade peruana de Arequipa, e sempre se notabilizou por uma profícua carreira académica, na qual foi professor e investigador, para além de dar corpo a uma série de ensaios. A literatura tornou-se num acréscimo ao trabalho laboratorial e formal, que permitiu avistar uma vertente distinta mas colorida da sua personalidade criativa, sem nunca prescindir de se ocupar com os contextos mais problemáticos e indagáveis. Tudo isto não esqueceu, para além de muita filosofia, uma carreira política, tendo-se candidatado à presidência do seu país, embora sem sucesso. A sua experiência de vida tornou-se de tal forma rica, que só conhece par em todo o seu repertório literário, contemplando uma visualização ampla para além das fronteiras do continente sul-americano. O mundo está plasmado nas visões, especulações e teorias de Vargas Llosa, que decidiu, em 2012, caraterizar a nossa civilização como a do espetáculo.

Retirando referências do trabalho do francês Guy Debord – “A Sociedade do Espetáculo” (1967), o sul-americano assume, como problemática, a discussão da cultura nos nossos dias. Assim, sustenta-se em nomes consagrados da literatura e do pensamento, tais como o inglês T.S. Elliot, e o norte-americano George Steiner. De forma comum e usual, aponta para a cultura como o conjunto de práticas, crenças, valores, e comportamentos de uma determinada comunidade, não obstante separe os conceitos de alta e de baixa cultura. É nesse sentido que integra a discussão nos dias de hoje.

Inicialmente, a dissecação arranca no palco da alta e da baixa cultura, sustentando-se no britânico mencionado. Alinhavando e assinalando as diferenças entre ambas, Llosa considera a necessidade de uma expressão valorizada e sintonizada com o encanto proporcionado pela arte, distanciado da mercantilização e da superficialização daquilo que é a cultura. Neste contexto, reforça a profecia de Elliot, que apontava um cenário negro para o futuro, em que a expressão cultural se tornaria adensada e nebulosa, perdendo o seu substrato e a sua peculiarização. Este argumento faz a ponte com a análise da perspetiva de Steiner, em que a própria cultura se tornava gratuita e colocada ao serviço do capitalismo. Assim, mais do que essa expressão e partilha cultural, salta à vista os prazeres momentâneos, feitos para divertir e inebriar aqueles que, agora, a consomem, ao invés de a usufruir. Aqui, colmata-se a enunciação do americano com a alienação marxista, em que as mercadorias e as suas transações se superam ao valor intrínseco que cada elemento cultural detém per se. A literatura, o cinema, e a música tornam-se, dessa forma, menos caraterizadas e mais realizadas em prol de uma indústria de entretenimento e de lucro, apontando àquilo que rende mais, e não ao que significa e se destaca mais pela sua diferenciação conceptual e identitária.

“La clase social es una realidad que debe ser mantenida pues en ella se recluta y forma esa casta o promoción que garantiza la alta cultura, una elite que en ningún caso debe identificarse totalmente con la clase privilegiada o aristocrática de la que proceden principalmente sus miembros. Cada clase tiene la cultura que produce y le conviene, y aunque, naturalmente, hay coexistencia entre ellas, también hay marcadas diferencias que tienen que ver con la condición económica de cada cual. No se puede concebir una cultura idéntica de la aristocracia y del campesinado, por ejemplo, aunque ambas clases compartan muchas cosas, como la religión y la lengua.”

Os conceitos de arte e de cultura acabam desmontados e despojados da diferença de outrora, daquilo que as fazia afirmar em tempos idos, mas que se colocam subvertidos pelas denominações e classificações de hoje. A própria crítica sai beliscada, perdendo a pertinência no seio dessa mercantilização cultural. Llosa volta, desta feita, a apontar as suas atenções para a própria definição de cultura, torneando-a de forma diacrónica. Do desenvolvimento da cultura nos tempos clássicos, medievais e modernos, chegamos até aos dias de hoje, onde se volta a adensar e a tornar-se mais opaca e alheia à capacidade de desencadear emoções personalizadas e valorosas de outrora. A chegada dos media embacia esta nova forma de transmissão e difusão cultural, e funde-se com os conceitos pós-modernistas, onde o conhecimento se torna pouco questionado e posto em causa. É nesse sentido que é realçado, de novo, o conceito de alta cultura, que, de forma inevitável, se tornou prescindida e preterida. Assim, são menos aqueles que usufruem e experienciam a própria música, a literatura, o cinema e demais artes plásticas e visuais, numa realidade mais obtusa e impercetível.

O papel das figuras de autoridade é posto em causa, à luz dos acontecimentos que inspiraram e que se sucederam ao Maio de 68, no despoletar de uma revolta estudantil em França com proporções internacionais. No entanto, o governo não caiu, e, com base nesse facto, o peruano assinala que, no meio de tanta irreverência e rebeldia, o poder (e as suas estruturas discursivas) mantém-se e que até se reforça, aprofundando as existentes divisões de classes. Apesar de tecer impressões elogiosas sobre os autores pós-modernistas, aponta-lhes o dedo na negação da realidade existente, indicando que, nessa inspiração que proveu aos jovens estudantes, os muniu de sofismas e de falácias norteadoras da sua postura, pouco exequíveis no confronto dos desafios existentes. É também, por esse caminho, que indica que os grandes pensadores da nossa idade se perdem e, consecutivamente, perdem valor e legitimidade, contribuindo para uma crescente alienação. Isto desemboca na discussão da cultura, em que critica a reversão dos valores dos agentes culturais, estando avesso à ideia do olhar de quem perspetiva a obra se torna mais importante que o artista ou que a própria obra. Ao olhar de Vargas Llosa, a arte e a cultura transcendem-se do poder, só se podendo tornar totalmente livres na superação dos discursos inerentes aos seus órgãos. No fundo, uma desvalorização promovida pelo embuste científico que a corrente pós-modernista e desconstrucionista trazia para a própria funcionalização cultural.

Tudo isto segue uma argumentação que até refere, no risco do surgimento dos extremismos religiosos, a defesa da proibição do véu em França, tendo em conta o largo contingente islâmico no país. Alguma discórdia e controvérsia que esta obra sugere e suscita estala neste caso complementar ao capítulo atrás exposto, de seu título “É Proibido Proibir“, juntando-se à reiterada distinção entre alta e baixa cultura, e à própria discussão do valor artístico das obras criadas nas últimas décadas. O desenrolar do livro passa a discorrer sobre a perda do erotismo na massificação das referências sexuais e da gratuitidade do próprio ato, cada vez menos, a seu ver, um ato especial, de cariz privado e íntimo, e despojado do estímulo de criatividade que outrora dava. No entanto, não é oposto ao fim dos preconceitos a si associados, mas sem nunca esquecer o caráter quase sagrado da prática e de toda a envolvência, devidamente contextualizadas, sendo esse caráter corroborado na tal literatura erótica. Como ponto principal da sua perspetivação, aponta a banalização de um ato que, por demais publicitação e descortinação, se tornou menos místico, desperto e sensível em relação aos expoentes da sua prática, com uma brisa de mistério a envovê-la.

 “El erotismo, que convierte el acto sexual en obra de arte, en un ritual al que la literatura, las artes plásticas, la música y una refinada sensibilidad impregnan de imágenes de elevado virtuosismo estético, es la negación misma de ese sexo fácil, expeditivo y promiscuo”

O discurso de Vargas Llosa regressa aos órgãos de poder, focando-se, principalmente, nos eixos políticos e o seu posicionamento cultural, à luz de uma identidade e de uma realidade específica. A correlação entre cultura e política flui numa dialética em que, podendo a política afetar sobejamente a cultura, também a própria cultura pode fazê-lo à política. À luz da civilização do espetáculo, e perante o espalhafato e o privilegiar das aparências e da publicidade, assiste-se a esta segunda. Diminuindo o valor das ideias e dos ideais, o peruano não se esquece de voltar atrás, para perceber como a política foi coartando mas, e em sua reação, estimulando a cultura. A faixa intelectual da população tornou-se o mote para que respostas sociopolíticas fossem dadas, e para que a política recuperasse um valor democrático, cívico e qualitativamente assinalável, para além de reivindicar uma estima e uma importância ainda mais evidentes e clarividentes, onde todos tinham um papel a efetuar. O desinteresse crescente pela política, a ver do autor, acaba por porvir de uma dinâmica cada vez menos desprestigiante (arrivismos e o próprio cadastro dos seus atores), e por tornar a discussão política menos refinada e interessada. Na história, destaca os países do Terceiro Mundo, e, nos anos mais coevos ao de hoje, os do Médio Oriente, na promoção de movimentações políticas populares e organizadas, afastadas dos fundamentalismos, que derrubaram vários ditadores. Muitas vezes, os protagonistas dessas mexidas eram jovens, mostrando a sua apetência para protagonizar diferentes circunstâncias políticas; opondo-se aos jovens ocidentais, conformistas e acomodados na sua realidade evoluída e próspera.

“La adquisición obsesiva de productos manufacturados, que mantengan activa y creciente la fabricación de mercancías, produce el fenómeno de la «reificación» o «cosificación» del individuo, entregado al consumo sistemático de objetos, muchas veces inútiles o superfluos, que las modas y la publicidad le van imponiendo, vaciando su vida interior de inquietudes sociales, espirituales o simplemente humanas, aislándolo y destruyendo su conciencia de los otros, de su clase y de sí mismo,”

O sul-americano acaba por apontar o tempo como o principal culpado de uma memória que já não se lembra do valor atribuído à política em tempos de uma atividade cultural devidamente sustentada. Para além disso, aquilo que se dá a conhecer das figuras desta área é o pior que estas têm para dar, numa espécie de (des)informação jornalística, explorando fait-divers e outras circunstâncias pouco relevantes no ponto de vista sociopolítico. Com vista a entreter ou a divertir, e à luz de uma libertinagem condescendente com os visados, esses conteúdos sensacionalistas são produzidos, apimentando as emoções e reações do público, mas sem fomentar aquilo que é a atividade política. Este fenómeno cultural assenta e reforça aquilo que é visto como a civilização do espetáculo, num lazer gradualmente poluído, um lazer de esquecimento e de descomprometimento. Tudo isto acaba por descompensar o acompanhamento das incidências políticas, e ajuda a que a política se torne, crescentemente, um foco de desinteresse, sem os dados necessários para informar os cidadãos eleitores dos principais intervenientes e agentes de decisão políticos. Outro ponto de se salientar é a diabolização das instâncias burocráticas, que, na sombra de caminhos perniciosos e corruptos, acabam por ser incluídas na generalização efetuada ao cenário político e público.

Para uma contestação adequada àquilo que é o estado e o sentido conjuntural, é sugerida o uso das diversas ferramentas à disposição – liberdades cívicas, liberdade de imprensa e de expressão, criação de debates, construção de críticas, etc. – para mostrar o desprezo e o desgosto em relação ao(s) sistema(s) vigente(s). Tudo isto para não despoletar um desprimor das leis vigentes, de forma não-intrusiva e não-lesiva a terceiros. Isso inclui, pelo meio, um dos grandes desafios da clandestinidade da difusão cultural, prejudicando os autores e as próprias editoras e demais agentes envolvidos: a pirataria. Os prismas éticos são colocados em causa, para além da legislação, que não consegue abarcar e controlar todo o fluxo que esta situação propicia. Mesmo que a vigilância não seja a mais bem efetuada, a verdade é que a privacidade decaíu monumentalmente nesta civilização, em que tudo se torna bem mais divulgado, e em que o recato cessa de existir como outrora. É nessa sucessão que surge um pouco aquilo que é a revelação do ópio do próprio povo (uma referência marxista à sua capacidade anestésica), que, como não poderia deixar de ser, é a religião. Mais do que o privado, o autor vai de encontro ao cénico e ao trágico deste fator da civilização do espetáculo.

“La cultura puede ser experimento y reflexión, pensamiento y sueño, pasión y poesía y una revisión crítica constante y profunda de todas las certidumbres, convicciones, teorías y creencias. Pero ella no puede apartarse de la vida real, de la vida verdadera, de la vida vivida, que no es nunca la de los lugares comunes, la del artificio, el sofisma y el juego, sin riesgo.”

É nesta senda que surgem as organizações de cariz terrorista, avessas à realidade ocidental, e dispostas a seguir uma doutrina radicalista daquilo que são os pergaminhos das suas religiões. A atividade política que assume, para além do mediatismo que conhece, acabam por relançar com fulgor estas investidas mais ou menos organizadas, que refletem o imiscuir da religião no palco das principais decisões, refutando o laicismo. Por sua vez, o catolicismo conheceu uma descredibilização, em especial com as emergentes revelações de atos pedófilos por parte de figuras da própria Igreja. De qualquer forma, e por mais teorias e posturas que neguem e reneguem a existência de uma ou mais figuras divinas, das quais se destaca Deus, está já muito assimilado e consolidado o corpo de costumes e de práticas que as honram e que as reconhecem como parte da sua mundividência real. Neste lote, integram-se cientistas, filósofos, e demais investigadores, de importante relevância no seu meio, e que reforçam uma crença que se perpetua nas mais várias gerações. No entanto, Llosa não descura o cariz moral da religião, que impede que impludam catástrofes ao nível da condução despreocupada e desvinculada de princípios dos prazeres primários e primitivos de cada um. Nisso, a religião, a contrário da estruturação da lei humana, surge como um elemento de consensos, de reflexões e de considerações éticas e morais, atuando como uma espécie de legislação da conduta interior. É também na mesma religião que germinam referências ao nível existencialista e metafísico, que extraem os eventuais preconceitos advindos destas discussões e questões, e que orientam, de forma mais ou menos eficaz, a vida de cada um.

O lado pecaminoso da religião descortina-se na sua institucionalização, e consequente ortodoxia. A História desvenda vários métodos e caminhos de repressão, totalmente opressores em relação a caminhos desavindos e alheios ao catolicismo, em especial. Mesmo que tenha sido o financiador e impulsionador de muitos artistas, também foi castrador de muitos outros, que se destacaram por crenças e expressões dissonantes do seu registo. A sua envolvência no poder tornou-se crucial para que todo o mecanismo de expugnação daquilo que estava a mais e daquilo que constituía uma heresia fosse ativado e efetivado. O mesmo tipo de totalitarismos, conforme referenciado acima, também se viu em diversos regimes de influência islamita, acrescendo-lhe uma propaganda quase evangelizadora, desestabilizadora de um clima democrático e que garanta liberdades cívicas básicas. Naquilo que é o conflito entre religião e capitalismo, o peruano não descurou realçar as virtudes capitalistas, entre outras o mercado livre, a propriedade privada, e a livre iniciativa, mas voltou a centrar a discussão no consumo desenfreado de produtos culturais, embora reconhecesse a dificuldade de o fazer. Neste binómio, salta à vista o nome do sociólogo Max Weber, que denunciou a falta de virtude capitalista pela interferência protestante e religiosa na atividade económica e comercial, e, por isso, na valorização daquilo que é cultura neste meio. Até na própria esfera daquilo que é o progresso científico, o espiritualismo tem a necessidade de se sobressair, combatendo o vazio que tanto desenvolvimento técnico e prático proporciona. As religiões, através das suas bases institucionais, funcionalizam-nas e adensam essa necessidade de uma minuciosa e criteriosa vida religiosa, despoletando uma espécie de dependência.

“No hay manera de demostrar racionalmente que Dios exista o no exista. Cualquier razonamiento a favor de una tesis tiene su equivalente en la contraria, de modo que en torno a este asunto todo análisis o discusión que quiera confinarse en el campo de las ideas y razones debe comenzar por excluir la premisa metafísica y teológica —la existencia o inexistencia de Dios— y concentrarse en las secuelas y consecuencias que de aquélla se derivan: la función de iglesias y religiones en el desenvolvimiento histórico y la vida cultural de los pueblos, asunto que sí está dentro de lo verificable por la razón humana.”

As conclusões, neste capítulo, são ambivalentes. Se, por um lado, importa honrar a herança cultural proporcionada pelas religiões, e, por isso, ressalvar o seu papel no próprio ensino, o sul-americano enuncia que, numa sociedade devidamente aberta, não devem existir constrangimentos ao uso de costumes e de tradições associados às crenças de cada um. Sem quaisquer privilégios em relação aos demais, mas sem quaisquer estigmas, preconceitos e proibições advindas de fundamentos religiosos e discriminatórios, embora mantenha a convicção de que se deve proibir o uso do hijab, da burca, e de quaisquer adereços uniformizados, assim como o uso de crucifixos em salas de aula de várias instituições de ensino. É neste princípio que o peruano remata a discussão da religião e da sua relação com a cultura, de forma tolerante, mas sem o atrevimento necessário para se envolver em discussões que não necessitam do seu contributo. Tudo isto sem esquecer que, por mais benévolas sejam as doutrinas religiosas existentes, todas elas possuem uma verdade inerente às suas palavras e, como tal, que totalmente nulificam as demais, e que são intolerantes à discussão da sua verosimilhança, podendo gerar danos incalculáveis na sua interferência na política.

O pensador resume toda a sua dissertação num capítulo final, onde volta a apontar para a descredibilização e a desvalorização intrínseca da cultura, mesmo num contexto de progresso e desenvolvimento científico e tecnológico. Ao invés de ser criado e estimado, é produzido e transacionado como somente mais um elemento de mercado, usado e ostentado por auto-proclamados intelectuais. As questões mais elementares relativamente ao valor e à significação da cultura tornam-se camufladas e esquecidas nesta dinâmica de espetáculo e de barulho, sem a pertinência de outrora. De um papel de contestação e de consciencialização, toda a atividade cultural passou a ser um canal de distração e de alienação, desviando as atenções das problemáticas existentes e inerentes à realidade quotidiana. Mesmo perante a informatização da cultura, difundida e mesclada no meio digital, onde autores e artistas se misturam numa dinâmica de superficialidade e de informalidade, e onde a tangibilidade da literatura se torna reduzida a memória, reforça a esperança dela recuperar a sua função de esclarecedora e de problematizadora da realidade, em sintonia com a crescente evolução e estabilização que as décadas trouxeram.

“El conocimiento tiene que ver con la evolución de la técnica y las ciencias, y la cultura es algo anterior al conocimiento, una propensión del espíritu, una sensibilidad y un cultivo de la forma que da sentido y orientación a los conocimientos.”

Mario Vargas Llosa contempla as estantes (e a Internet, mesmo aqueles que só se prendem por resumos ou por referências) com um contributo de vulto, no que toca à problematização e à perscrutação da atualidade. Nomeando esta civilização como a do espetáculo, justificou-a com toda a pompa e circunstância que o entretimento trouxe, num misto de euforia anestésica e que aliena cada um da realidade em que está inserido. Tudo isto se proporcionou mesmo com uma crescente literacia, para além de maior imediatismo informacional, e de uma evolução do binómio ciência-tecnologia notável. A política e a religião, embora funcionem como variáveis que já tiveram piores dias, permanecem a ter um peso importante naquilo que é a constatação desta civilização, com a primeira a ser um subterfúgio, e a segunda um refúgio. Como incentivo em relação ao contrário, aponta para os países de maior opressão, onde permanece a vontade e a irreverência de quantos dispostos a envolver-se nas causas das suas nações, através de uma atividade cultural mobilizadora e capaz de pôr em causa as vicissitudes do status quo.

Nesta civilização do espetáculo, tudo o que é visto, tudo o que entra pelos canais de informação e de entretenimento acaba por ser meio de consumo e pouco de esclarecimento e de instrução em relação ao que se passa pelo mundo. Tudo para ocupar o tempo de um lazer que se massificou, e que se tornou recheado de produtores conformados com os requisitos de abordagens e de temas que dão lucro e sustentabilidade. Restrições estas ao potencial criativo e artístico, que levaram a que esta política se tornasse mais alimentada e mastigada. Perante o espectro de crises humanitárias e políticas no exterior, exorta aos organismos de direito para imporem sanções que deem o mote para a rutura de correntes totalitárias e repressoras. Na dicotomia entre cultura e política atuais, dá-se luz à tal civilização do espetáculo, em que o divertimento transcende qualquer tipo de sensibilidade para o destrinçar da verdade e da realidade.

Por si só, esta obra aponta para o consciencializar, tentando, ao máximo, alhear-se da civilização que descreve em todas as suas linhas, incluindo toda a linha envolvente das “alta” e “baixa” culturas. Sustentando-se nos “dinossauros” – termo empregue pelo autor para se referir aos teóricos e filósofos mencionados – o peruano abriu caminho para uma argumentação que nos leva a tomar em conta diversas vertentes de uma realidade que nos encaminha para algo muito estandardizado e sensacionalizado. São mais salientes os vértices visíveis e propalados por todo o lado, mesmo que não representem totalmente o sólido como ele é, do que aqueles que, na sua crescente depreciação, ressoam a verdade no horizonte da sua visualização. Tudo se tornou mais nebuloso, com a massificação de uma cultura destinada para o lucro e para o entretimento, e pouco preocupada com o esclarecimento e o amadurecimento. Num espetáculo recheado de uma arte pouco pensada, Mario Vargas Llosa menciona aquilo que se perdeu, no engenho maior da humanidade, entre pensamento e sentimento. É uma civilização que acomoda mais do que incomoda, mas que, por força da imortalização, pede que se ouçam as vozes a ecoar no íntimo, esquecidas, mas nunca irrefletidas.

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