A brandura da psicologia de Albert Bandura

13 SETEMBRO, 2017 -

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Albert Bandura é um dos nonagenários mais célebres no contexto da academia norte-americana. De seus méritos e investigações, a psicologia está em todos eles, assente na exploração daquilo que é a perceção da personalidade, do comportamento, da aprendizagem, e do papel social em todas estas vertentes psicológicas. Uma das referências institucionais desta área em todo o mundo, é, amiúde, referido e estudado por universidades de todo o mundo, para além de ser reivindicado e aplicado em vários contextos práticos. Bandura construiu-se, assim, como um académico que nunca esqueceu a sua importância para lá das barreiras dos ensaios e das teorias, lançando-se, a partir do impulso dos seus postulados, para a discussão quotidiana social.

Albert Bandura nasceu em Mundare, na província canadiana do Alberta, no dia 4 de dezembro de 1925, sendo o mais novo dos seis filhos de um casal de descendência polaca, do lado do pai, e ucraniana, do lado da mãe. As limitações existentes na educação naquela cidade obrigaram-no a emancipar-se desde cedo, aprendendo de forma autónoma, e incutindo, a si próprio, a vontade de estudar. Os seus progenitores encorajaram-no a desvendar o território que cercava a sua cidade, pelo que consolidou essa independência. Após terminar o ensino secundário, trabalhou na proteção da autoestrada do Alaska, lutando contra a sua submersão natural. Foi nestas experiências pela tundra daquele estado norte-americano que se tornou interessado na psicopatologia, ao contactar com uma subcultura em que muitos dos seus residentes se prendiam com hábitos de jogo e de bebida, ajudando-lhe a abrir os seus horizontes e perspetivas de vida e de investigação.

Com 24 anos, passou a viver nos Estados Unidos da América, naturalizando-se em 1956, e habitando lá até aos dias de hoje, após casar-se com Virginia Varns, e, com ela, ter duas filhas, sendo elas Carol e Mary. Curiosamente, o primeiro contacto que teria com a psicologia seria casual, pois apenas se inscreveu num curso da área, antes de se licenciar, em 1949, na University of British Columbia, por lazer. Depois dessa graduação, moveu-se de malas e bagagens para o, à data, grande polo de psicologia teórica, a University of Iowa, obtendo o seu mestrado em 1951, e o doutoramento um ano depois. Como conselheiro académico, teve Arthur Benton, para além do apoio de Clark Hull e de Kenneth Spence.

Foi nesta instituição académica que Bandura começou a moldar o seu estilo investigativo e psicológico, apostando em testes experimentais de forma sistemática e replicável. A esse perfil, juntou, nas pesquisas que foi fazendo, representações de fenómenos mentais, como imagens e representações várias, assim como a noção tácita da existência de um determinismo recíproco. Esta iluminação contextual fazia-lo crer em que existi uma relação de influência mútua entre um agente e o ambiente em que este se enquadra, separando-se daquilo que era a tendência mais normalizada então, o behaviorismo. Consoante foi ganhando experiência, a proporção de ferramentas conceptuais com as quais ia lidando e trabalhando fez-se acompanhar a esse crescimento empírico, incluindo modelos de observação de fenómenos, e de aprendizagem correspondentes a estes, para além da autorregulação associada aos mesmos.

Sempre pioneiro e carismático, foi incentivando os seus colegas a usar esse seu método prático para abordar os processos mentais, opondo-se às mais mentalistas psicanálise e personologia (estudo da personalidade). O seu pós-doutoramento foi efetuado no Wichita Guidance Center, no estado de Kansas, e passou a dar aulas na Stanford University, logo em 1953, instituição onde ainda leciona. Em 1974, tornou-se presidente da maior associação de psicólogos do mundo, a American Psychological Association (APA), assumindo essa candidatura somente na tentativa de ter os seus quinze minutos de fama.

Quanto à sua carreira investigativa propriamente dita, e influenciado pelo trabalho de Robert Sears sobre o comportamento social e a aprendizagem identificativa, arrancou-a com o objetivo de perceber o papel da modelação social na motivação humana, no pensamento e na ação. Colaborando com o seu primeiro estudante de doutoramento Richard Walters, também desenvolveu alguns estudos sobre a aprendizagem social, e a noção de agressão, desembocando numa ilustração daquilo que é o papel crucial da modelação no comportamento humano, e levou à construção das bases daquilo que é a aprendizagem observacional. Esta, observando os comportamentos dos outros, fomenta esta forma de aprendizagem social, à luz de vários processos, e de agentes familiares ou íntimos como modelos nessa incorporação de conhecimentos, numa espécie de condicionamento implícito.

A primeira grande teoria de Bandura foi o da aprendizagem social, onde examinou as fundações da aprendizagem humana, para além da vontade das crianças e dos adultos imitarem comportamentos observados em terceiros. De acordo com esta teoria, os modelos são uma fonte importante para a aprendizagem de novos comportamentos, para além de alcançar alterações a esse nível em condições institucionalizadas e reguladas. Nesse prisma, há três tipos de sistemas regulatórios que podem atuar nesse controlo do comportamento: primeiro, argumentos ou casos antecedentes, que permitem influenciar aquilo que é a resposta e o tempo durante o qual o comportamento se verifica.  Aqui, revela-se crucial o estímulo ser, antes da resposta comportamental, apropriado àquilo que é o contexto social inerente, e os atores da interação. Em segundo lugar, existem as influências provindas de respostas aos comportamentos, em forma de experiências e de observações, que impactam a ocorrência dos mesmos no futuro. Por fim, a importância das funções cognitivas nessa aprendizagem, em que a memória gera a recordação daquilo que foi comportamentos passados em relação a outros indivíduos, como a emoção de agressividade. No fundo, a observação e a imitação de comportamentos de outros é a chave desta teoria, com a aprendizagem, em forma de processo cognitivo a dar-se num dado contexto social, tendo em conta as consequências dos supramencionados comportamentos, sintonizando-se com o behaviorismo.

Ainda no que toca à agressão, também aflorada pelo behaviorista B.F. Skinner, o canadiano considerou curto determinar, como modificadores comportamentais, a recompensa e o castigo, à luz do condicionamento clássico e operante. Voltando a realçar que grande parte da conduta é aprendida a partir de outros seres humanos, focou-se naquilo que era o tratamento de crianças agressivas a partir das fontes de violência nas suas vidas. Este trabalho culminou, ao lado de Neal Miller e de John Dollard, no conjunto de experiências com um Bobo Doll, em 1961, e em 1963. Estas passaram por ver aquilo que as crianças faziam a esse boneco, que se reergue após ser empurrado ou derrubado, depois de ver um adulto a agir de forma agressiva em relação ao mesmo; para além de verem esse modelo a receber uma dada recompensa ou castigo após se comportarem desse modo para com o boneco.

Os resultados comprovaram que, consoante os modelos se tornavam agressivos, também eles se comportavam dessa forma, variando a influência desses modelos sociais, pois as crianças de um dado sexo associavam-se mais ao comportamento daquilo que eram as referências do seu. Porém, se a consequência fosse negativa, a propensão de os imitar era menor. Este conjunto de experimentações levou a comprovar aquilo que Bandura vinha postulando, em que as pessoas não só aprendem após terem uma dada consequência pelos seus comportamentos, mas que poderiam, também, ser ensinadas pela observação. Tudo isto deu o colorido empírico necessário para que a obra “Social Learning Theory”, tratado datado de 1977, se tornasse ainda mais credível e proeminente; e o mote necessário para uma psicologia mais voltada para a cognição. Não obstante, as críticas existiram, nomeadamente sobre o estimular de atitudes e posturas agressivas nas crianças.

“Psychology cannot tell people how they ought to live their lives. It can however, provide them with the means for effecting personal and social change.”

Social Learning Theory” (1977)

Quanto à teoria da cognição social (advinda da teoria de aprendizagem social), em meados dos anos 80, a pesquisa encetada por Bandura havia conhecido uma maior amplitude, uma visão holística que conseguia envolver a cognição humana no contexto da aprendizagem social. É aqui que surge a tal teorização, em que parte da aprendizagem de um indivíduo pode decorrer na observação de outros, tanto em interações sociais, experiências, ou até nos próprios meios de comunicação, em que certas figuras são configuradas como exemplos a seguir. Enquanto alguém observa um exemplo a comportar-se de certa forma, para além daquilo que são as consequências desse comportamento, as sequências de eventualidades que liga o histórico desses registos comportamentais são despertadas, e a informação proveniente é usada para guiar a conduta subsequente. Observar esse modelo permite a quem vê envolver-se ao comportamento aprendido, estando a sobrevivência do ser humano ligada a essa replicação, para além da tentativa-erro.

A experiência do Bobo Doll permitiu, alguns anos depois, concluir que há uma relação direta entre a autoeficácia percebida por cada um, e a propensão de acontecimento de alterações comportamentais. A autoeficácia deriva, por sua vez, de concretizações pessoais, da experiência que gera dor e sofrimento, da persuasão verbal, e dos estados fisiológicos. A teoria, no seu corpo, explica-se a partir de três vetores-chave, sendo eles o pessoal – se o indivíduo tem uma autoeficácia grande ou baixa em relação ao comportamento – o comportamental – a resposta dele após concretizar um dado comportamento – e o ambiental – aspetos que influenciam a capacidade do ser humano de efetivar esse ou outro comportamento. Tudo isto foi versado em “Social Foundations of Thought and Action: A Social Cognitive Theory” (1986), apresentando os homens como auto-organizados, proativos, autorreflexivos, e autorregulados, para lá daquilo que é o meio externo. Nesta mesma obra, apresenta-se uma tríade, em que as partes funcionam de forma mútua e recíproca. Os elementos constituintes são o comportamento humano, os fatores ambientais e os fatores humanos, incluindo a cognição individual, e diversos eventos biológicos e afetivos. Aqui, retorna-se à ideia do determinismo recíproco, em que se governam as relações causais desses efeitos, onde todos os automatismos humanos acabam por findar na autoeficácia. Conceito presente mais adiante, surge como a principal premissa de identificação de um dado agente, capaz de se adaptar e de mudar em plena atividade e conjugação social, a partir do foro interno.

Esta noção havia sido pensada e estudada no ano de 1963, com “Social Learning and Personality Development”. Perante o cenário em que, seguindo alguns modelos, a eliminação de fobias se tornava possibilitada, Bandura visualizou nas crenças de autoeficácia um método para mediar as alterações de comportamento e de confronto dos medos. Ao lado dos seus exemplos, e seguindo-lhes as pisadas, é possível rebater e discutir a preponderância das fobias no desenvolvimento de um dado ser humano. Perante este cenário, procurou dar largas a uma pesquisa na qual, no funcionamento psicológico, o pensamento autorreferencial se assumia como influente na própria orgânica e dinâmica humanas. O conceito de autoeficácia, podendo ser entendido como eficácia pessoal, é a confiança de um dado ser humano na sua capacidade de alcançar certos resultados, que afeta todas as áreas do esforço humano. Ao determinar as crenças e os valores de uma dada pessoa, acaba por delimitar e inspirar aquilo que uma sente e se sente capaz de em relação aos desafios que tem diante de si, para lá das decisões que tende mais a fazer. Ao olhar do canadiano, é a tal crença de um alguém conseguir ser bem-sucedido numa dada tarefa, ou em certas situações específicas.

Em 2004, ao lado de Charles Benight, confirmou que também nos traumas se visualizava a possibilidade de superar essas situações desconfortáveis e incapacitantes, incluindo o stress pós-traumático. Através de um sentido de controlo bastante estimulado em relação àquilo que era a retrospetiva do vivido, foram vários os casos bem-sucedidos, num exemplo do sucesso do fomento da autoeficácia. Sete anos antes, tinha lançado uma obra na qual explicava o êxito do autocontrolo (“Self-efficacy: The Exercise of Control”, de 1982). Em 2008, explorou, em pleno sistema educativo, o papel da autoeficácia, procurando averiguar aquilo que era a continuada e prolongada explosão tecnológica, onde a informação passou a surgir com muito mais dimensão e número. O papel da investigação passou por capacitar os estudantes de que poderiam, a partir de uma eficácia autorregulada, sintonizar-se com a cronologia veloz da tecnologia, moldando as suas personalidades profissionais a partir das suas capacidades cognitivas, para além de tudo que é exigido no novo panorama profissional. O sistema educativo assumia, desta feita, o papel de possibilitar os aprendizes com as ferramentas logísticas, técnicas e anímicas de acompanharem esse processo.

“People’s beliefs about their abilities have a profound effect on those abilities.”

Bandura apresentou, também, o conceito de agências humanas, núcleos de extrema importância, de cariz sociocognitivo, onde os indivíduos são, à imagem do que foi apontado na teoria da cognição social, independentes e autónomos, mais do que meros organismos de reação, moldados pelo ambiente onde vivem. Assim, os seres humanos têm a possibilidade de moldar as suas ações, talhando-as para certos resultados, para além de controlar os próprios processos de pensamentos, as suas motivações, os seus afetos e as consequências do que fazem. O exercer de controlo nestes níveis desemboca naquilo que são os mecanismos de agências pessoais, emergentes e interativas na sua génese, que aplicam perspetivas da cognição social, e que geram contribuições através de uma causalidade recíproca, de fora para dentro e vice-versa.

Quanto às agências morais, ainda com a teoria da cognição social como sustento, a conduta é regulada a partir de valores morais, assim como os aspetos sociais e pessoais constituintes. O eu moral surge desse raciocínio moral, que conduz à ação moral através de mecanismo autorregulados, ativados num contexto psicossocial. O interesse nutrido pelo psicólogo nesse papel ético prendeu-se com a eventualidade da carência de pontos de socorro em relação a lapsos no julgamento moral, onde um indivíduo procura aquilo que é o fundamento moral. Este é capaz de assumir dois papéis a esse nível, podendo agir de forma humana ou desumana. A desatenção moral seletiva é um dos cenários que pode surgir no segundo caso, quando existe uma espécie de reconstrução cognitiva, julgando transformar reprováveis em algo justificável, mas perdendo aquilo que é a sua eficácia autorregulada. Isto pode advir e partir de um saneamento do idioma, para além de desvalorizar atos lesivos em relação a outrem, a atribuição de culpa a vítimas de várias contingências, o distorcer da atribuição e delegação de responsabilidades, entre outras deturpações morais.

O trabalho do americano prendeu-se, conforme visto, e de grande modo, com a área da educação. As grandes problemáticas do seu pensamento prenderam-se com a perspetivação de como o comportamento e o desenvolvimento são afetados pelas operações cognitivas durante atividades sociais. A teoria da cognição social, impulsionada pela ideia de autoeficácia, promoveu, tanto professores, como estudantes, a estabelecerem metas mais altas, e a aumentar a sua confiança naquilo que é o alcançar desses objetivos. A aprendizagem por parte das partes envolvidas no ensino é reforçada e estimulada, muito assente no aumento de confiança de ambas, que participam, de modo comparticipado e em sinergias, em ações que possibilitam planear e lograr com êxito.

“If self-efficacy is lacking, people tend to behave ineffectually, even though they know what to do.”

“Self-efficacy Mechanism in Human Agency” (1987)

 

A investigação oferece o apoio necessário para a incorporação de estratégias que capacitam a formação de professores, incutindo-lhes o prazer e a vontade de partilhar aquilo que é a aprendizagem observacional. Neste prisma, os docentes e os discentes afirmam-se como entes integrados e observadores de um dado modelo oleado e experienciado de atuação, que reúne o conhecimento e a compreensão do mesmo. As relações entre as partes, para além das estabelecidas com o meio-ambiente, e do comportamento de todos, são potenciadas por aquilo que é o determinismo recíproco, que influencia aquilo que são os pensamentos futuros, a partir das conclusões retiradas em conjunto. Quando um estudante ou um professor tenta imitar um comportamento observado, a autoeficácia dele permite-lhes acreditar veementemente na probabilidade de o efetivar, com a autorregulação a surgir para gerir aquilo que é a definição de objetivos em prol disso. Consoante os comportamentos se tornam bem-sucedidos, para além de válidos, a autoeficácia é exponenciada, e o próprio processo pedagógico potenciado ao máximo.

Albert Bandura permanece como um dos académicos mais pertinentes no contexto do estudo daquilo que é a realidade do ensino e da educação, à luz da cognição e da aprendizagem sociais. Por seis décadas, e à luz do behaviorismo e de uma envolvência social, na dialética interior-exterior, o canadiano é um dos mais citados psicólogos de todos os tempos, operacionalizando o potencial interno no campo externo. Na educação, conseguiu imprimir uma dinâmica de contínua aprendizagem, assente num modus operandi de grande autonomia e independência dos agentes envolvidos, catalisando a educação para uma superação contínua e em constante descoberta. Membro de nove dos mais conceituados jornais da especialidade, incluindo o Journal of Personality and Social Psychology, trata-se de uma personalidade que se estende para lá das fronteiras desta área do saber. Com uma cognitiva candura, Bandura contemplou a psicologia com a sua formosura, empenhando-a e constatando-a como a emergência do estudo e da investigação dos protagonistas da terrestre ação.

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