A angústia de se sentir perdido…

3 SETEMBRO, 2017 -

Quando os filhos se perdem dos pais, os minutos de espera são angustiantes e podem deixar marcas de abandono, de culpa, de sensação de perda e de desnorte

“Bolas! Deixa a miúda em paz!” – o tio da Júlia já se estava a passar com a constante rotação da cunhada, como um radar de aeroporto, sempre a ver onde ela estava e, no fundo, sem prestar atenção nenhuma à conversa que estavam a ter, com mais uns amigos, no café junto à praia.

“Calma” – disse-lhe a mulher, irmã da mãe da Júlia.

“Desculpem” – exclamou a visada, mas passados menos de dois minutos já estava outra vez a esquadrinhar a areia, sobre-erguendo-se de cada vez que a Júlia, de três anos e meio, saía do lugar, nem que fosse para pôr mais areia no balde.

“Estou farto” – desabafou o cunhado, e aproveitando que o empregado estava ali perto pediu a conta. “Estamos aqui sete adultos e todos nós temos um olho na tua filha. Eu, que estou aqui de frente para ela, vejo tudo o que está a fazer. Agora, daí a pôr o meu cérebro só nela e não conseguir dar uma para a caixa na conversa, perturbando toda a gente, desculpa, mas estou farto.”

Paga a conta, levantou-se, e com ele todos os outros. A mãe da Júlia foi para ao pé da filha, e sentou-se a brincar com ela, triste, mas sentindo que tinha agido bem.

Nunca tinha contado a ninguém o dia em que ela desaparecera na praia, com ano e meio, quando as duas tinham lá ido num excelente dia de primavera. Estava só a brincar atrás de uma duna, mas o susto da mãe não era descritível. Não contara a ninguém até porque a própria Júlia não tinha notado o alvoroço que causara mas, talvez por ninguém saber, a considerassem agora, a ela, mãe, uma anormal.

Todavia, fazia o que o coração mandava, e dando um beijinho à Júlia ajudou–a a carregar mais um balde de areia.

Vale a pena partilhar convosco algumas ideias sobre este tema – o stresse pós-traumático –, que muitas vezes é ignorado depois de ocorrer um evento particularmente desagradável. Para além do apoio às vítimas de agressões ou de outras formas de violência, há que pensar no “depois” porque, passada a refrega, pode subsistir o receio de sair de casa, a desconfiança de ver em cada passante um bandido, o medo dos ambientes estranhos ou a suspeição perante o que não nos é completamente conhecido. Isso é mau porque, como se diz, “the show must go on” e o imprevisto, o acaso e a ousadia, tal como o risco, devem fazer parte integrante do nosso dia-a- -dia para sermos cada vez melhores e mais completos.

Pessoalmente, a recordação mais antiga que tenho é de, a dois meses de fazer quatro anos, me ter perdido à saída da missa da Igreja de São Pedro, em Sintra, em dia de feira. Recordo-me como se fosse hoje e é o meu “início” em termos de memória. Estava a dar a mão à minha mãe e, de repente, naquele tropel de pessoas, fiquei só, sem saber para onde ir, com menos de um metro de altura entre gente enorme… pelo menos era o que me parecia.

Felizmente, uma senhora que estava ali viu-me atarantado, pegou-me na mão e disse: “Sei quem são os teus pais e vamos à sua procura!” Rapidamente os encontrámos e foi quando a minha mãe me pegou ao colo e vi nos seus olhos o brilho do alívio que chorei. Aliás, esta história teve um final quase picaresco porque, para me compensarem do susto, os meus pais compraram-me um carrinho de brinquedo na feira que estava a decorrer precisamente no Largo de São Pedro de Sintra, e como não havia leis para brinquedos nem preocupações de segurança, o carrinho era feito de folha de metal e mal lhe peguei cortei um dedo… mas foram o menos, o sangue a jorrar e a dor, comparados com a sensação de angústia de me encontrar perdido, e mais tarde conversei com os meus pais sobre o assunto, a angústia deles de saberem que eu estava ali, “algures”, mas sem saberem onde.

Tive a mesma sensação que a mãe da Júlia quando o meu filho mais velho, sem eu saber como, desapareceu em plena Feira Popular, em Entrecampos, com três anos de idade. Quando já íamos pedir que anunciassem nos altifalantes da feira, lá o vimos, ao lado de uma senhora, a ver um qualquer carrossel.

Filhos e pais sentem-se perdidos quando um deles se perde dos outros. Trata–se de uma situação muito comum e que pode ocorrer em qualquer lado, a qualquer hora. Quantas vezes uma criança não está com ambos os progenitores e, apenas porque há algo que os distrai, numa montra, por exemplo, ou dentro de uma loja, a mão despega-se e a própria criança sente liberdade para explorar o espaço, sem ter a noção de que perde os azimutes e deixa de ter referências.

Na praia, por exemplo, nós próprios (sobretudo quando necessitamos de óculos e os deixámos no toldo) temos essa sensação ao vir do banho, ao vermos uma linha amarela de areia com uma multidão que não reconhecemos, e perdemos completamente a noção de onde estão as nossas coisas.

Muitas crianças se perdem dos pais, embora, felizmente, depressa tudo acabe em bem. No entanto, os minutos de espera são angustiantes e podem deixar marcas de abandono, de culpa, de sensação de perda e de desnorte, seja nos filhos, seja nos pais.

P. S. É engraçado como num país onde até há bem pouco tempo se tratavam as crianças “abaixo de cão” haja tantos pruridos e tantas reticências a usar nas crianças os peitorais similares aos que se usam nos cães. “As crianças não são cães!” – dizem, e concordo. Mas reparem: em vez de irem suspensas pela mão dos pais, que podem largar facilmente, e correr seja para desaparecem, seja para se meterem debaixo de um carro, escorregarem e fazerem a tão comum subluxação do cotovelo, e ficarem muito chateados porque o seu ritmo de andar e de explorar o mundo não é o dos adultos, com essas “trelas”, a criança vai apoiada nas ancas, onde não faz esforço, não escorrega e cai, pode andar a circular enquanto os pais estão parados a ver montras, e não correm o perigo de fugir. Deixemo-nos, pois, de ideias feitas e de pruridos idiotas – e, pais, não se sintam ridículos ou “criminosos” por usarem esses dispositivos de segurança com os vossos filhos.

Crónica escrita pelo Pediatra Mário Cordeiro / Parceria jornal i

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