A amargura e sátira da obra de Thomas Couture

10 ABRIL, 2017 -

Thomas Couture pintou a obra La Peinture Réaliste em 1865, em pleno advento do movimento artístico conhecido por Realismo. Este movimento surgiu como uma revolta contra as temáticas exóticas e o teatralismo do Romantismo, e o estoicismo e idealismo clássico da arte académica, tendo como principal propósito captar objectivamente o quotidiano, numa espécie de democratização da arte, a par com a reforma democrática decorrente da Revolução Francesa de 1848. Nas palavras de Gustave Courbet, um dos principais nomes do Realismo, “a pintura é essencialmente uma arte concreta e, como tal, apenas deve consistir na representação de coisas reais e existentes”.

Olhando atentamente para La Peinture Réaliste, aferimos a visão de Couture, tornando-se claro que a obra é uma sátira do Realismo. Um jovem pintor retrata uma cabeça de um porco – um dos símbolos mais representativos da estupidez – enquanto usa como assento uma escultura da cabeça de Zeus: um exagero do desprezo dos realistas pelo Classicismo e pela pintura histórica. Para completar a pintura, temos uma couve, uma bota e uma lamparina, objectos comuns colocados acima do jovem artista de forma a simbolizar a veneração dos Realistas por aquilo que Couture considerava não a realidade objectiva, mas sim a vulgaridade e fealdade.

No meio de outras obras da arte moderna europeia expostas na Galeria Nacional da Irlanda, algumas delas estandartes do Realismo, este quadro provoca uma reacção totalmente diferente, por ser verdadeiramente hilariante. É uma sátira comparável aos programas de comédia de hoje em dia que analisam a actualidade, ainda mais cáustica quando pensamos que a própria obra é um testemunho Realista. A obra impele-nos a descobrir mais sobre o seu autor.

Thomas Couture, nascido em 1815, em França, passou pelas École des Arts et Métiers e École de Beaux-Arts, ambas em Paris, escolas nas quais adquiriu visões muito rígidas daquilo que devia ser a arte, tornando-se assim um académico fervoroso. O seu principal objectivo era ganhar o Prix de Rome, prémio que cobria os custos de uma residência de um ano em Roma, onde estudaria na Academia Francesa. Após seis tentativas falhadas, finalmente foi presenteado com o prémio, em 1837.

Após exibições bem sucedidas, Couture pintou aquela que é considerada a sua obra-prima, a grandiosa Romains de la Décadence (1847). Objectivamente, é uma representação de uma orgia, prática comum no Império Romano, feita de forma bastante respeitadora das normas do Classicismo. Analisando-a, conclui-se que é uma figuração dos vícios que afloraram no Império e levaram à sua decadência, mas, mais do que isso, é mais uma sátira mordaz da sociedade francesa contemporânea, cuja moral estava apodrecida pelos escândalos da monarquia que vigorava. A obra está exposta no Musée d’Orsay, em Paris, e vale a pena vê-la, nem que seja só pelas suas dimensões monstruosas (772 x 472 cm).

Couture foi convidado pelo Governo francês e pela Igreja para pintar murais. Dois deles ficaram incompletos e o terceiro recebeu críticas medianas. A partir daí, apesar de continuar a pintar quadros, a maior marca que deixará na arte é como professor de jovens artistas como Édouard Manet ou Henri Fantin-Latour, que ensina no seu atelier, criado como resposta à École que antes o acolheu, mas com a qual desenvolveu dissidências.

A sua amargura e continuada reprovação da sociedade contemporânea levam-no a pintar mais uma sátira, Le Chemin Épineux, em que uma cortesã seminua conduz uma carruagem puxada por quatro homens, que representam a indulgência, ignorância, inconsciência e auto-censura, ao mesmo tempo que augura um caminho difícil para a sociedade, através dos arbustos espinhosos. A sátira compõe grande parte da sua obra mais importante, mas falta-lhe o ímpeto cómico que a propulsionaria a mais largas distâncias.

Uma das ironias mais prementes na história de Couture é o facto de que na obra referida inicialmente, La Peinture Réaliste, o mesmo tenha demonstrado as suas capacidades notáveis como um autor Realista. Tivesse-se rendido a esse movimento e explorado todo o seu potencial e capacidades técnicas, e quiçá o seu legado fosse muito maior do que ter sido professor de Manet, que, por ironia do destino, se tornou num dos mais importantes artistas do Realismo e, posteriormente, Impressionismo.

Quando Manet mostrou ao seu antigo mestre um dos seus primeiros quadros, Le Buveur d’Absinthe, a sua resposta foi algo nas linhas de “Um bebedor de absinto! E eles pintam abominações como essa! Meu pobre amigo, tu és o bebedor de absinto. Tu é que perdeste o teu sentido moral.”

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