A aclamação dos Capitão Fausto no Coliseu de Lisboa

24 DEZEMBRO, 2016 -

O anúncio do concerto dos Capitão Fausto no Coliseu de Lisboa foi como que a confirmação do estatuto que a banda tem no panorama musical português. Goste-se ou não, não há como negar a importância da banda na música portuguesa contemporânea.

A disposição do palco, no centro da sala de espectáculos circular, tem como objectivo reproduzir as condições dos ensaios, em que os elementos tocam virados uns para os outros. Tal disposição retira espaço ao público, mas acrescenta uma teatralidade e imponência à massa que se forma para ver a banda, aproximando-o da mesma. O que importa não é vender mais bilhetes, mas sim fazer desta noite a mais orgânica celebração da curta, mas frutuosa, carreira dos Capitão Fausto.

Vestidos a rigor, entram em palco ao som do clamor do público efusivo e atiram-se a “Corazón”, do mais recente Capitão Fausto têm os Dias Contados. Nota-se um profissionalismo especial na forma como a banda aborda os seus temas, como quem quer providenciar aos seus fãs o melhor concerto possível. Quando a canção termina, nota-se ainda uma gratidão especial aos aplausos; aquele sorriso tímido de imensa felicidade, que torna a experiência mais intimista. A forma como o baixista Domingos Coimbra olha para nós é enternecedora, e faz-nos sentir as pessoas mais especiais do mundo naquele momento. A banda brinca com o público e, apesar da imensidão da sala de espectáculos, uma pessoa sente-se imbuída no ensaio que é um concerto, quiçá o mais importante até então.

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O início é potente, seguindo-se “Morro na Praia” e o afamado single do álbum anterior, “Maneiras Más”. As canções soam intensas e envolventes, e incitam o povo a saltar, que o faz com uma animação de quem realmente sente o som que sai do palco e as mensagens que a banda transmite com as mesmas. Quantos de nós não morreram na praia, já?

Chegamos ao ano “Mil e Quinze”, e a orquestra que acompanha a banda, no palco original do Coliseu, faz a sua primeira grande aparição, complementando o outro dessa canção do álbum mais recente. O som aproxima-se mais do fuzz de Pesar o Sol, de 2014, muito graças à acústica da sala, e apesar de isso retirar detalhe às canções ornadas do último álbum, não lhes retira força.

O interlúdio “Grelha II” abre o caminho para “Santa Ana”, abrindo a revisitação dos primórdios da banda e relembrando-nos de que houve uma altura em que foram comparados a uma cópula entre Beatles e Franz Ferdinand. Mas haverá disso mais para a frente, num exercício de nostalgia. Para já, a secção do meio concentra-se em Pesar o Sol e na exploração do psicadelismo. Possivelmente, será a secção mais morta do espectáculo, denotando-se até algum burburinho no público, que encara as deambulações sónicas como banda sonora para uma conversa, mais do que uma peça de arte à qual prestar atenção. Mas os Capitão Fausto merecem mais do que isso.

Então, “Semana em Semana” puxa o pessoal de volta ao espectáculo, com frases mais do que citáveis, entoadas a plenos pulmões pelo público. No entanto, aposto que muitos deles já foram para a Comporta saltitar no Verão (eu incluído).

Entramos então no segmento de Gazela, que abre com “Supernova” e “A Febre”, passando ainda pelo primeiro hit da banda, “Teresa”, e “Verdade”. As canções musculadas correm como gazelas (tem graça) com a bateria saltitante de Salvador Seabra, dando a impressão de que o chão do Coliseu e os saltos do público também contam como elementos de percussão. Infelizmente, a corrida a passo de gazela também nos aproxima do final do espectáculo, cuja primeira parte é fechado com o êxito mais recente da banda, “Amanhã Tou Melhor”. Não sei quanto a ‘tar melhor amanhã, mas ‘tivemos muito bem naquele momento de comunhão entre banda e público, ao ouvir uma das canções mais infecciosas do ano 2016.

Palmas, palmas, palmas. A banda sai. Palmas, palmas, palmas. A banda volta. Não há tempo a perder, o povo quer mais. Abrem-se as hordes do encore com um interlúdio que nos levará a outra das canções mais celebradas da banda, “Célebre Batalha de Formariz”, num registo aguerrido que poderia dar em moche, mas não deu, pelo simples facto de cada um querer fazer a festa por si, fechando os olhos, gritando a letra e atirando-se contra o ar espesso e quente que o rodeava.

O maior trunfo fica guardado para o final, com “Alvalade Chama Por Mim”, discutivelmente a melhor canção do último álbum da banda. A nostalgia que a canção evoca é mais do que adequada para terminar um concerto que foi a pedra-de-toque da capacidade da banda, e que tanto pode ser tocada hoje, amanhã, daqui a vinte anos (Capitão Fausto celebram 25 anos de carreira no Coliseu?) ou até, metafisicamente, há muitos anos atrás. O glorioso solo dos instrumentos de sopro é replicado pelo público e fecha a aclamação dos Capitão Fausto como uma das mais importantes bandas a criar música em Portugal, actualmente.

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Fotografias de Diogo Caetano / CCA

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