A 1ª Guerra Mundial criou o fenómeno da popularidade do futebol feminino na Inglaterra

24 JULHO, 2017 -

A I Grande Guerra criou o fenómeno da popularidade do futebol feminino. Jogos chegavam a ter mais de 50 mil espetadores.

Goodison Park, Liverpool, 26 de Dezembro de 1920 – «beyound imagination», como gostam de dizer os ingleses. Cinquenta e três mil pessoas, assim mesmo, por extenso, encavalitaram-se no estádio do Everton para assistirem a um jogo de futebol. Mais ainda: cá fora, catorze mil outras almas lutavam por um lugarzinho, por mais minúsculo que fosse.
Bem, e o que há de estranho nisso?, perguntarão, com a sua dose de impaciência, alguns dos que têm a infinita bondade de passar semanalmente os olhos por estas páginas. Acrescento o facto: de um lado estava o Dick, Kerr’s Ladies FC e do outro o St. Helens Ladies.

Sublinho a realidade: era um jogo entre mulheres.

Ah! Mais de 65 mil vibrantes interessados num jogo assim é obra! De estalo!, diria o Carlos, n’Os Maias.
Vamos a outro facto, surgido menos de um ano mais tarde. 5 de Dezembro de 1921: as raparigas e senhoras que gostavam de correr atrás da bola e chutá-la para dentro de balizas, sem cuidados especiais pelas delicadas canelas, foram proibidas de jogar futebol em qualquer campo de clube pertencente à Football Association, a vaidosa Federação Inglesa.

Vamos lá ver o preceito em que se baseou tal decisão. E aqui entra o discurso oficial e a resolução publicada pela Comissão Consultiva da FA: «Têm surgido diversas queixas sobre os jogos de futebol praticados por mulheres que nos forçam a expressar a opinião de que este desporto é muito pouco indicado para o sexo feminino e não deve, de forma alguma, ser encorajado. Surgiram, igualmente, queixas sobre as condições em que estes jogos têm decorrido e da forma como as receitas desses jogos têm sido utilizadas para fins não caritativos. Somos de opinião que uma excessiva percentagem dessas receitas tem sido desviada para despesas inadequadas. Desta forma vimos requerer aos clubes nossos filiados que recusem ceder as suas instalações para estes jogos».

A questão tem cabimento: que receava a Football Association? Que o futebol feminino quebrasse as receitas do futebol masculino, tão devastado que fora este pelo advento da I Grande Guerra que atirou uma geração de jovens para a batalha das frentes e das trincheiras, tirando-os dos relvados?

A verdade é que esta decisão absolutamente sexista só foi revogada em 1971. Na livre Inglaterra, as mulheres passaram a jogar na clandestinidade.

Sobre carris

A Dick, Kerr & Company era uma empresa de construção de locomotivas e carruagens fundada em Kilmarnock, na Escócia, e com sede na cidade inglesa de Preston.

Em 1914, com o recrutamento militar de uma enorme fatia da população masculina, as mulheres entraram em força como operárias para as fábricas da Grã Bretanha. As que trabalhavam na Dick, Kerr não demoraram muito a dedicarem-se a disputados jogos de bola nas instalações da empresa durante as suas pausas laborais e, até, nos dias livres. Seguiram-se desafios contra outros grupos de trabalhadoras.

Um fenómeno de surpreendente popularidade emergia por entre os subúrbios industriais das cidades da velha Inglaterra. Com o epicentro em Preston, bem entendido.
No dia de Natal de 1917, o Dick, Kerr Ladies FC arrastou até ao Deepdale, o maior estádio da região, 10 mil pessoas que assistiram a uma gloriosa vitória sobre a Arundel Coultartd Factory por 4-0.
Espectáculo garantido!

A receita desse jogo destinou-se ao auxílio de operários feridos na guerra ou em serviço.
As moças de Preston ganharam um prestígio tal que se dedicaram a encontros de exibição um pouco por todo o país. A Dick, Kerr & Co. pagava a cada uma dez shillings por jogo e forma a cobrir as despesas de deslocação.
Praticamente profissionais. Algo que criou anticorpos.

Internacionalmente ativas!

Ninguém imaginava ainda que o futebol feminino iria sofrer tão forte machadada na sua progressão que o deixaria marcado por cinco décadas.
Uma vaga absurda de inveja levantava-se em Londres, essa fossa onde vão desaguar todos os deserdados do Império.

Em França, Alice Milliat, a grande cabouqueira da presença das mulheres nos Jogos Olímpicos (estrearam-se em 1900, mas apenas no golfe e no ténis), estava atenta ao que se passava em Preston. Era uma personagem inabalável.
No ano de 1920, reuniu uma equipa de futebol feminino que se deslocou a Inglaterra para o primeiro torneio internacional entre mulheres. Ou melhor, entre duas equipas de mulheres. A já famosa Dick, Kerr Ladies FC e uma ‘so called’ seleção de França. Quatro jogos, em Preston, Stockport, Manchester e Londres, Stanford Bridge, com três vitórias britânicas e um empate.

Prestígio no ponto mais alto.
De tal forma que as Ladies da Dick, Kerr & Co. não tardaram a abalar, por sua vez, para França onde assinaram uma digressão plena de popularidade, jogando em Paris, Rouen, Havre e Roubaix.

A fatal decisão da FA não dobrou o espírito de treinador das raparigas de Preston, Alfred Frankland, conhecido por Pop Frankland: «Continuaremos a jogar se os organizadores de jogos de exibição nos cederem campos, ou então jogaremos em terra lavrada».

Em 1922, a equipa estava na América do Norte. Proibida de jogar no Canadá, seguiu para os EstadosUnidos. Lutava contra a discriminação com todas as suas forças. Defrontou nove equipas compostas por homens: três vitórias, três empates e três derrotas.
Em Inglaterra, ninguém as esquece. No passado dia 19 de maio saiu de cena uma peça de teatro que estava em palco há quatro anos. Chamava-se: No Man’s Land – The Amazing Tale of Dick Kerr Ladies.

Texto de Afonso de Melo, publicado no nosso parceiro jornal Sol

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