27 de julho de 1970. Era Salazar e morria…

27 JULHO, 2017 -

O pároco da Estrela, Tobias Gomes Duarte, procedeu à extrema-unção: estava, agora, civil e religiosamente morto. Mas a verdade é que há muito que Portugal se habituara a viver sem ele.

9h15 da manhã.

O fim da agonia.

Salazar estava condenado desde a queda sofrida em setembro de 1968.

A seu lado nessa manhã de segunda- -feira, 27 de julho de 1970, estava o médico, dr. Eduardo Coelho. E a sua sombra–mulher, vestida de negro: Maria de Jesus Caetano Freire.

Morreu em casa. São Bento: casa que não era, afinal, sua.

O pároco da Estrela, Tobias Gomes Duarte, procedeu à extrema-unção.

Salazar estava civil e religiosamente morto.

Todos os jornais do país se lançaram febrilmente em segundas edições.

Já há muito tempo que ninguém perguntava: “Quem manda?”

E ninguém mais respondia: “Salazar! Salazar! Salazar!”

Parece que estava um dia bonito sobre Lisboa.

Gente importante, funérea, ia chegando a conta-gotas: Marcelo Caetano (presidente do Conselho), Gonçalves Rapazote (ministro do Interior).

Enfileiravam-se na despedida: Supico Pinto (presidente da Câmara Corporativa), D. Manuel Gonçalves Cerejeira (patriarca de Lisboa), Francisco Cazal-Ribeiro (deputado)…

Precisamente às 11h20, a bandeira nacional ficou a meia haste em todos os edifícios públicos.

Hora da morte após a morte.

O féretro já tinha calendário para ser exposto: ao início da tarde seguiria para a Assembleia Nacional, ali ao lado, paredes-meias, e ficaria em câmara-ardente durante dois dias, após o que se daria início às cerimónias fúnebres.

Câmara ardente na Câmara Corporativa.

Pelo caminho, a sempre um pouco macabra cerimónia do embalsamamento, dirigida pelo dr. Arsénio Nunes, chefe do Instituto de Medicina Legal.

Rituais da morte.

Recordavam-se episódios. Um deles curioso: o último ato público de António de Oliveira Salazar teria sido o voto, ele que no seu tempo anunciara eleições tão livres como na livre Inglaterra – 26 de outubro de 1969, na Junta de Freguesia da Lapa, eleições para a Assembleia Nacional. Salazar deslocara-se de automóvel e não saiu dele – cumpriu o seu serviço cívico dentro da viatura. Privilégios…

Páginas e páginas

Na hora da morte recordava-se a vida. A carreira. Os discursos. A sua forma tão particular de exercer o poder.

Enchiam-se páginas e páginas. Algumas interessantes, outras fastidiosas. Muitas simplesmente laudatórias.

Não há um morto que não tenha sido um homem bom.

O que nos traz aqui é a morte, não a vida.

Dia 27 de julho de 1970. A vida era mesmo assim, como foi.

Salazar: benemérito da pátria.

Vendo bem, a morte batera à porta de Salazar no dia 7 de setembro de 1968. Uma queda na sua residência de verão, com cadeira ou sem cadeira, com barbeiro ou sem barbeiro, as versões começaram a ser muitas.

Derrame cerebral no lado direito do crânio.

Rodeiam-no eminências: o prof. Houston Merritt, americano, observa-o detalhadamente no Hospital da Cruz Vermelha.

Também a sua degradação física virá a ficar envolta em polémicas e contradições.

Deixemos isso para outra altura.

Dez dias antes de morrer, Salazar, na companhia da inseparável Dona Maria de Jesus e de uma enfermeira, dera-se ao luxo de um pequeno passeio de automóvel.

Não houve causa-efeito mas, no dia seguinte, foi acometido por uma doença infecciosa: problemas renais, hemodiálise.

O corpo do velho senhor deteriorava-se.

Os boletins clínicos, assinados pelos drs. Eduardo Coelho, Cândido da Silva e Jacinto Simões, tornaram-se frequentes e preocupantes.

A morte surgia no horizonte, inevitável, inexorável.

No domingo, 26 de julho, um acidente cardíaco. As ondas do destino rompiam de vez os diques da resistência física.

Os órgãos comprometiam-se, no colapso sem remédio.

Há quem se mantenha fielmente nas margens do seu leito. A figura pequena e escura de uma mulher que lhe dedicou a existência.

É tempo de preparar as exéquias. As públicas homenagens. O caminho até Santa Comba Dão para a morada definitiva no lugar onde nascera.

Apenas burocracia.

Portugal já tinha há muito aprendido a viver sem ele.

Artigo escrito por Afonso de Melo, publicada no nosso parceiro jornal Sol

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