25 de Abril: entre duas guerras

25 ABRIL, 2016 -

Era noite e pela picada fora íamos, com um olho no inimigo e outro no nosso passado interrompido. Longe daquele lugar tremendo, embebidos por um enorme silêncio que era uma espécie de antecâmara de um ataque iminente, sonhávamos voltar com vida.

Oh inimigo, estou aqui! – gritava o Ricardo, que sabotava todos os treinos feitos em Mafra, e que declamava de cor versos de Álvaro de Campos.

O Ricardo é que sabia! – pensávamos. Em Nampula, também nos apetecia dizer alto e bom som que estávamos ali, não por vontade própria, mas porque a guerra é a guerra, e os senhores dela assim decidiram.

Amizades desligadas para sempre pelo ofício da profissão dos nossos pais, cedo aprendemos que o homem é ele e a sua circunstância. Há sempre azares maiores que os nossos, mas cada um sabe da sua dor. Filhos de comandantes da GNR, de São Pedro do Sul para Torredeita, de Torredeita para Nelas, de Nelas para Viseu, de Viseu para Mangualde, uma vida nómada, desenraizada, sem possibilidade de criar amizades, afectos ou recordações vivas de te beijar. Apenas em imaginação. Lembras-te quando nos vimos de relance por essa beira alta fora ou por esse Porto adentro?

Um dos melhores momentos da nossa vida sem dúvida alguma – viver com a ideia de que vínhamos de lá sem vida. Pior não podia acontecer, por isso, habituámo-nos a alimentar os egos com pouco, aliás os egos desapareciam logo na primeira instrução. Apesar que no nosso grupo havia lugar para os egos, pois estávamos calhados uns para os outros. Ríamo-nos das idiossincrasias de cada um de nós, das nossas educações e regiões de onde provínhamos. Mas, no fundo, respeitávamo-nos, como colegas que éramos. Uma companhia na qual ninguém morreu, nem ninguém teve necessidade de matar, merecia um louvor militar!

Terminada a nossa expedição pelas terras, meio século atrás percorridas e descobertas pelos nossos antepassados, foi tempo do nosso capitão deixar a sua mensagem final: o que quer que vocês encontrem na vossa vida futura, nada se poderá comparar com o que passaram aqui. Na altura, pensei que aguentaria bem as agruras que a vida pudesse vir a trazer. O capitão, se soubesse o que, certamente, sabe hoje, teria dito: caros amigos, a verdadeira guerra vai começar agora, quando chegarem a Portugal. E, de facto, Portugal estava muito diferente do Portugal que deixei. Portugal dos meus pais, dos projectos, dos sonhos por realizar, da esperança ainda no futuro, dos empregos para toda a vida e de que a guerra não nos apanharia. O certo é que nos apanhou e levou-nos anos de vida. Não viemos de lá com traumas, mas com boas recordações e muitas histórias para contar. Mas os anos passaram na mesma.

E, quando cheguei, o pessoal do Instituto já estava completamente disperso. Só restava o Cunha, o eterno estudante, natural de Angola, mais propriamente de Camacupa, com o seu enorme coração. Então, Cunha? – perguntei. Vou voltar para África – respondeu-me. O Cunha, o bon vivant da cidade do Porto que não ligava puto aos estudos, tímido por natureza, mas um amor de pessoa, resolvera desistir de estudar depois de anos a fio de reprovações.

Fiquei só no Porto. A revolução não tardava em chegar e eu sem saber o que fazer. Finalmente, chegou, como diz a Sophia, chegou a madrugada por que ela esperava e eu também. Mas também chegaram as amarguras e as desilusões da revolução. A não concretização das utopias, porque as utopias não se concretizam, perseguem-se. Os primeiros mártires da revolução, alcoolizados pela memória dos dias, os primeiros retornados, revoltados com a descolonização, os primeiros arrivistas, que na madrugada anterior alinhavam com o obscurantismo e, na nossa madrugada, já tinham passado para o lado de cá. Ali, na altura à nossa beira, depois em lugares de poder, onde enganaram o povo e, hoje, completamente esquecidos e para sempre ilibados dos seus crimes de lesa-pátria.

Foi bom enquanto durou, essa madrugada, essa manhã onde o povo se diz que se libertou das argamassas da ditadura. No entanto, esquecemo-nos que só nos libertamos, como dizem aqueles que, cinicamente, chamam aos nossos cantautores «os amanhãs que cantam», quando um dia assim quisermos, pois que o tirano arranja sempre uma janela para fugir.

Revolução militar, política e social. Uma revolução a todos níveis exemplar, dizem uns, pelo pouco sangue que escorreu pelas calçadas, enquanto outros dizem: revolução que pouco mudou; apenas um dia festivo, em que toda a cultura do antigo regime contaminou, na mesma, e repercutiu-se nas décadas seguintes até aos dias que vivemos, precisamente porque não houve uma destruição massiva das estruturas; não se teve que começar do zero.

As revoluções, por norma, servem os interesses dos revolucionários e dos reaccionários, e não da maioria das pessoas. Essas não têm a fome do poder, nem a fome da liberdade. Simplesmente, têm fome. E, hoje, tenho fome porque não soube cuidar da minha vida. Falei quando me devia ter calado, condescendi quando me devia ter revoltado. Em nome dos valores da liberdade, em nome do 25 de Abril.

Texto de João Esteves
Fotografia RTP

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