20 bons álbuns que a primeira metade de 2017 nos deu a ouvir

27 JULHO, 2017 -

Concluído o primeiro semestre do ano, sentimos necessidade de arrumar as nossas prateleiras discográficas – físicas e digitais – e fazer um primeiro balanço dos álbuns que marcaram os últimos seis meses.

A redacção da Comunidade Cultura e Arte tem vindo a cobrir um alargado número de lançamentos discográficos, desde o início de 2017, com um total de uma centena de críticas publicadas até ao momento. Os vinte álbuns que aqui destacamos – quase todos com o link da crítica associado aos títulos, para poder ser lida ou relida – resultam de uma escolha colectiva dos álbuns preferidos da nossa equipa editorial.

Esperamos que a lista, ordenada alfabeticamente, possa ser lugar de descoberta para quem procura sons bons e frutíferos, nos trilhos dos mais variados géneros musicais. Podem ainda ouvir a playlist do Spotify que preparámos, e que reúne um par de canções de cada um dos álbuns aqui destacados.

 

Ayreon – The Source
Ayreon é o projecto musical do cantor, multi-instrumentista e compositor holandês Arjen Anthony Lucassen. Criado como prequela do albúm 01011001, The Source traz uma história consigo. Em termos gerais trata-se de um planeta dependente cada vez mais de máquinas; um possível paralelismo com os dias de hoje que não deve ser ignorado. O albúm conta, como é já normal, com vários convidados consagrados, entre eles James LaBrie, Simone Simons ou Floor Jansen, e cujas vozes são meticulosamente escolhidas e idealizadas por Arjen para contar os diferentes e ricos “capítulos” deste albúm de características teatrais, épicas, e que ao fecharmos os olhos nos transporta para uma caminhada de descoberta, como se entrássemos num mundo do fantástico literário criado por alguém como Tolkien. Feito para funcionar como um todo, The Source destaca-se pela complexidade quer lírica quer melódica desta história contada a várias vozes orientadas pelo génio criativo de Arjen e onde se destacam músicas como “The Day That The World Breaks Down” ou “Everybody Dies“.

 

Brian Jonestown Massacre – Don’t Get Lost
«Treze álbuns depois e continua tudo lá, estamos em 2017 mas para os Brian Jonestown Massacre os anos não passaram. Apesar da frescura que apresentam nalgumas canções, a impressão digital de Newcombe continua intransponível. Não é de todo uma surpresa, tendo em conta que a banda californiana sempre nos habituou a belos trabalhos.»

 

Dirty Projectors – Dirty Projectors
«A experimentação característica da banda não se perdeu. Aliás, com a inclusão de novos elementos electrónicos, está mais fresca que nunca. Este é sem dúvida o álbum mais sonicamente refinado da banda, muito graças à produção cristalina. Depois do simples e lindíssimo Swing Lo Magellan, de 2012, o som da banda tem agora uma nova roupagem. Se isso é uma coisa boa ou não, já depende do ponto de vista do ouvinte.»

 

Father John Misty – Pure Comedy
«O terceiro trabalho de Father John Misty é uma espécie de ensaio, uma “dissertação” musical sobre a sociedade ridiculamente verdadeira da qual o artista faz inevitavelmente parte. É sem dúvida o seu trabalho mais honesto: se em I Love You Honeybear estávamos perante um cínico apaixonado, neste novo projecto vemos um homem que confronta os seus medos e o seu lugar na sociedade de forma real e bastante introspectiva.»

 

Fleet Foxes – Crack-Up
«Acordes, melodia, dinâmicas, estrutura, textura, arranjo, andamento, escala, inovação, instrumentação, tom, contraste, representação. Uma audição descomprometida de ‘Crack-Up’ revelará, facilmente, o trabalho que foi feito a todos estes níveis, e causará impacto agradável aos sentidos – mesmo que uma escuta inicial não garanta a compreensão de todas essas dimensões, nem a do álbum como um todo. Mas, posteriormente, uma audição mais atenta não desiludirá. Os elementos que Pecknold destaca como essenciais para a música foram aqui considerados; e o resultado é um trabalho rico e emotivo.»

 

GoldLink – At What Cost
«Como era inevitável, o álbum é um banho de imersão em beats tropicais e flows de dança apurados, dando continuidade ao caminho e ao propósito que GoldLink parece ter tomado como seu desde os dias – não tão longínquos quanto isso – das faixas divulgadas no SoundCloud: descobrir os limites do hip-hop, apontando aquilo que pode vir a ser, para além daquilo que já é.»

 

Ho99o9 – United States Of Horror
«Álbum produzido por David Sitek conhecido por ser guitarrista dos TV On The Radio e produtor de artistas como Santigold ou Thee Oh Sees. Malhas sangrentas, violentas e musculadas, repletas de uma chinfrineira epiléptica, desafiante das velocidades do rock. Há espaço para tudo, incluindo faixas que se vão arrastando por sonoridades próximas do trap e do horrorcore, como é o caso de “War Is Hell”, “Splash” ou a mais sombria “Moneymachine”.»

 

Joey Badass – ALL-AMERIKKKAN BADA$$
«As músicas possuem a particularidade de estarem nomeadas em maiúsculas, ajudando à expressão entusiasta e fervorosa do próprio álbum. Para além disso, importa reforçar que todo o álbum se deixa levar numa sonoridade pura, limpa, e bem trabalhada, contrastando com o choque lírico, que promete sujar-se no vocabulário e na visita a mentes e posições conservadoras e discriminatórias.»

 

Kendrick Lamar – DAMN.
«A própria sonoridade deste novo álbum afasta-se do som do álbum anterior: os elementos de jazz soul que caracterizavam To Pimp a Butterfly são praticamente inexistentes, optando antes por um som mais fiel ao hip-hop, e que remonta à sonoridade de good kid, m.A.A.d city, o segundo álbum do artista. Bangers como “DNA.”, “LOYALTY.”, ou o single “HUMBLE.” mostram uma sonoridade mais digital, com o hip-hop no centro da construção das batidas.»

 

Luís Severo – Luís Severo
«Escola, o primeiro single, já tinha deixado as expectativas bem elevadas, e Boa Companhia, o novo single, veio por os pontos nos is e completar o belo bouquet de apresentação. E mesmo se estas forem as melhores canções do álbum (Cabeça de VentoOlho de Lince também competem), o resto do álbum está cheio de suminho para que se beba frequentemente o álbum sem nos ficarmos pelos singles. Isto também porque, aliás, o álbum não é grande (as 8 canções parecem estar na moda na cena musical portuguesa) e é tão fácil ouvi-lo que apetece estar sempre a fazê-lo.»

 

Mac DeMarco – This Old Dog
«Mais maduro e melancólico. Não é que o músico canadiano, com uma das comunidades de fãs mais jovens e descontraídas do panorama indie, nunca se tenha aventurado por estas sonoridades. Mas agora explora-as ao longo de praticamente todo um álbum, servindo-se não só dos seus estranhos acordes como também da produção discretamente assombrada.»

 

Mastodon – Emperor of Sand
«Este é sem dúvida alguma um dos álbuns do ano – complexo tanto em termos líricos como musicais – e que consegue voltar a solidificar a posição dos Mastodon como uma das melhores e mais inovadoras bandas do século XXI. É um álbum que não desilude os fãs mais recentes mas que é também capaz de “fazer as pazes” com os mais antigos. Partiu-se com esperanças elevadas para ouvir um novo álbum de Mastodon e mais uma vez não desiludiu.»

 

Mount Eerie – A Crow Looked At Me
«Gravado maioritariamente no quarto em que Geneviève morreu, com os instrumentos que lhe pertenciam, A Crow Looked At Me é uma elegia dolorosa: as palavras, debitadas de forma absolutamente sincera e frágil, são passagens de diários escritos entre o Verão e o Outono do último ano. São uma descrição, frequentemente demasiado explícita, do processo de luto, das dúvidas, da tristeza, do vazio. Ouvir e ler A Crow Looked At Me é como entrar em casa dos Elverum. Testemunhamos a dor e a incompreensão. Desconcertante e envolvente, é uma experiência que parece transcender a impressão estética e artística.»

 

Nick Hakim – Green Twins
«Em Green Twins, Nick Hakim consegue transpôr a sua dor de alma para a música de uma maneira magnífica, aliando a sonoridade ao estado de espírito de forma fiel e cativante. Álbuns como este são assustadoramente belos, deixam-nos receosos mas ao mesmo tempo confortam, porque sentimos que não estamos sozinhos na nossa dor e sentimos a coragem que advém de exprimir os aspectos menos bons da vida com uma harmonia sonora incrível a espelhar essas emoções. Green Twins eleva os dias cinzentos a um patamar “prazeroso” e mostra-nos que a tristeza também tem o seu encanto.»

 

Primeira Dama – Primeira Dama
«A diferença para o primeiro álbum faz-se notar sobretudo numa maior limpeza do som, do espaço em que a melodia se envolve, que acaba a dar ainda maior destaque ao teclado que é a sua principal arma, juntamente com a voz, que nos chega também sem os ecos que marcavam o primeiro álbum. Gravando este disco com Coelho Radioactivo como produtor (artista a solo e metade de Flamingos, banda que divide com Luís Severo), traz-nos um álbum mais alegre e mais pop, menos distorcido e mais directo.»

 

Roger Waters – Is This The Life We Really Want?
«Tendo em conta todas as letras e as canções que compõem Is This The Life We Really Want? pode-se concluir que este não é um álbum rock ou musical no seu todo, embora com combinações orquestrais bastante interessantes, mas sim um trabalho lírico de Roger Waters como o próprio tem vindo a fazer desde que se encontra numa carreira a solo. Sempre com uma posição muito crítica e fiel aos seus ideais, este é mais “um álbum à Roger”, um álbum que trata assuntos políticos e sociais nas letras de cada canção, através da crítica, da sátira e até mesmo da poesia.»

 

Slow J – The Art of Slowing Down
«As suas músicas são muito pessoais e o flow é avassalador na maioria dos casos, deixando o ouvinte perplexo pela maneira como joga com as palavras e com rimas bem construídas. Mas o mais interessante é que não é só de hip-hop que vive este artista. Ainda agora chegou aos palcos e já se estende além da arte a que é associado. A  sua ambição desmedida é transmitida fielmente pela sua música, combinando influências e criando instrumentais que são o melhor dos mundos onde vão buscar inspiração, acompanhados de canto, voz ou um soar simbiótico dos dois.»

 

Stone Dead – Good Boys
«Herdeiros frenéticos de The Beatles e Oasis, com Bruno Monteiro a lembrar Paul McCartney e João Branco a lembrar Liam Gallagher, num dueto sublime, acompanhados por Jonas Gonçalves e Leonardo Batista que completam a harmonia perfeita deste clássico de rock n roll. Depois de The Stone John Experience os rapazes de Alcobaça voltam em força e com o rock ‘n roll a correr-lhe nas veias.»

 

SZA – CTRL.
«SZA quer contar uma história que é sua, sendo de todos – e que não sendo nova – é relato de vital importância. Fazendo isso por via da música, a conquista é excelsa. Há um arrojo excitante nas letras, até na delicadeza com que os tópicos são abordados, maioritariamente correspondido por produções que fazem lembrar obras-primas como Blonde, editado há sensivelmente um ano atrás.Mesmo as sonoridades mais trap-oriented são prontamente alternadas, ora por guitarras melódicas e outros artifícios próprios de indie rock, ora pelo boom bap mais selecto até ao soul mais relaxante. Essa mistura exótica consubstancia-se numa peça musical de incontornável valor.»

 

Thundercat – Drunk
«Drunk é vida, ou pelo menos a sua representação musical. O álbum é composto por pequenos disparos musicais de destreza instrumental e composição apelativa, um espaço sónico através do qual Thundercat nos abre portas para o seu universo, a sua visão escrita e musicada. A própria capa do álbum é reminiscente de um artista imerso no seu mundo, uma realidade em que confronta o dia-a-dia em pequenos desabafos, discutindo aspectos mundanos da vida com um groove bem cimentado e uma voz descontraída, confortável no seu papel melódico pintalgado com piada.»

 

Clica nos títulos de cada álbum para leres a nossa crítica ao mesmo

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