20 anos de Final Fantasy VII

8 SETEMBRO, 2017 -

Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez em que peguei no jogo que me mudaria a vida. Estava no 7º ano de escolaridade e tinha 11 ou 12 anos. O ano devia ser 2000 ou 2001. A minha mãe fazia compras no Continente do Colombo e íamos todos com ela; eu, os meus irmãos e os meus avós. Na altura, sem internet ou telemóveis, aproveitava a oportunidade para a convencer a comprar-me qualquer coisa. Normalmente, um jogo para a Playstation (a primeira) ou qualquer coisa parecida.

Naquele dia não havia muita escolha dentro do preço que podia pagar. Apenas dois. O 24 horas de Le Mans, um jogo de corridas que eu iria levar por levar e um outro, com um título estranho, de que nunca tinha ouvido falar: Final Fantasy VII, edição platina e a metade do preço do primeiro.

Escolhi o 24 horas de Le Mans. Era mais caro e não desgostava de jogos de corridas. Para além disso, tinha o Pedro Lamy na capa. Por algum motivo, a minha mãe mudou de ideias e obrigou-me a escolher outro jogo. Penso que foi o preço. Um era 10 contos e o outro era apenas 5. A contragosto, voltei à secção de videojogos e procurei mais uma vez por qualquer coisa que pudesse levar. Final Fantasy VII continuava a ser a única escolha possível.

Mais vale levar qualquer coisa“, pensei, e agarrei na caixa, sem imaginar as milhares de horas de jogo que me esperavam ao longo das duas décadas seguintes com Cloud, Barret, Tifa, Aerith, Red XIII, Cid, Yuffie, Vincent e Cait Sith. A história de Cloud é, discutivelmente, a melhor entre todos os títulos numerados da série (os preferidos tendem a ser FFVI, FFIX e FFX). Hoje em dia, já com o décimo quinto no mercado e apesar de os amar a todos, nenhum deles surtiu em mim o impacto do sétimo.

A relação entre Cloud e Sephiroth, o vilão principal, de amizade, de sonhos e relações esmagados, o tema ambiental, a verdade por trás dos “Ancients” e a procura pela Promised Land (Terra Prometida) são tudo elementos que consigo recitar de cor e que ainda me aquecem o coração. O mundo, as personagens, a música, a arte, os (maus) gráficos. É difícil explicar o quanto gosto deste jogo e o quão importante ele foi no início da minha adolescência.

Apesar de estar repleto de momentos memoráveis e importantes, aquele que mais me marcou foi a morte de Aeris (ou Aerith). Aerith simbolizava tudo o que é bom e puro em Gaia, nome dado à Terra, no universo do jogo. O seu optimismo e carisma são evidentes desde o primeiro momento em que se cruza com Cloud, a personagem principal, e começamos a torcer por uma relação entre os dois, ao som do icónico Aerith’s theme. Esta crush não acontece por acaso. A equipa de desenvolvimento dedicou um esforço redobrado para retratar Aeris o mais apelativa possível – isto aliado com fortes habilidades dentro do jogo fizeram dela uma personagem insubstituível para lá do elemento narrativo e um choque ainda maior para os jogadores quando o momento acontece.

“Even the players who weren’t emotionally impacted by her death were thinking “Well shit, there goes my best healer….” (comentário aleatório do Youtube)

Neste vídeo, a partir dos 2 minutos e 46 segundos, podem assistir ao começo de uma relação que mudou a minha vida, que me ensinou um pouco sobre o bem e o mal e sobre o que significa estarmos dispostos a sacrificarmo-nos por aqueles que amamos, por uma causa maior do que nós próprios. A sua morte foi um momento marcante nos videojogos, apesar de não ter sido a primeira vez que os criadores de um jogo utilizaram a morte de uma personagem importante para avançar o enredo e intensificar a motivação das personagens. Houve…qualquer coisa diferente no modo como Aerith morreu e os instantes que se seguiram, que ainda hoje me comove.

“The cycle of nature and your stupid plan don’t mean a thing! Aeris is gone. Aeris will no longer talk, no longer laugh, cry or get angry…….What about us…… what are WE supposed to do? What about my pain? My fingers are tingling. My mouth is dry. My eyes are burning!”

Em todo o meu longo historial de jogador, estes dez minutos são os que mais se destacam. Aerith é mais do que um interesse amoroso em FFVII. É um raio de esperança, uma luz, num mundo inicialmente sujo, escuro e dominado por interesses corporativos. Todas as cenas em que aparece são uma fonte de inspiração e, através de Cloud, vivemos um verdadeiro investimento emocional na personagem.

Talvez seja a forma como Cloud carrega o corpo dela até ao lago e finalmente o deixa afundar. Talvez tenha sido a realização de que a história entre os dois tinha chegado ao fim e de que nunca mais a iríamos ver, ouvir e rir com ela. Talvez tenha sido a música ou o diálogo ou o culminar de dezenas de horas entre todos estes elementos. A verdade é que foi neste momento, quando Aerith cai inanimada no chão, ao som da sua música, que todos nós – jogadores – aprendemos a chorar.

“People die of disease and accident. Death comes suddenly and there is no notion of good or bad. It leaves, not a dramatic feeling but great emptiness. When you lose someone you loved very much you feel this big empty space and think, ‘If I had known this was coming I would have done things differently. These are the feelings I wanted to arouse in the players with Aerith’s death relatively early in the game. Feelings of reality and not Hollywood.” Yoshinore Kitase, director de FFVII

Final Fantasy VII foi lançado há 20 anos, mas o seu legado, suspeito, é intemporal. Quanto a mim, anseio pelo remake, enquanto guardo todos estes pedaços cá dentro como parte essencial da minha formação.

Podes ler aqui mais crónicas de M.J. Cruz

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