15 clássicos franceses que marcaram a história do cinema

4 JULHO, 2016 -

Quando uma pessoa quer conhecer o Cinema e começar a ver filmes, para além dos que passam na televisão, ou dos típicos filmes de acção que países como os EUA oferecem, a indústria francesa é o primeiro ‘meio de estudo’ para poder perceber o Cinema. Entender Cinema é entender o Cinema francês e todas as suas vertentes. Continua a ser uma das indústrias mais produtivas do mundo e conseguem manter uma certa magia, que muitas outras nunca conseguiram ter. Daí perceber esta indústria torna-se vital para alguém que quer entrar no ‘mundo dos bons filmes’, para variar.

Esta lista, à semelhança com a italiana, é composta por clássicos, lançados até 1980. Aqui, estão os melhores anos da indústria, e é apresentado um resumo do melhor desse mundo. A magia e a criatividade que o Cinema francês consegue demonstrar é raramente obtida por outra indústria. Características como a emoção, sedução, paixão e a intriga são típicas nos filmes franceses, servindo muitas vezes como base para novos filmes, actores e realizadores. Pessoalmente, sempre me senti atraído pela sua magia, e admito a minha preferência pela indústria deste país que, juntamente, com a indústria japonesa consegue ainda manter uma faísca viciante no espectador, mantendo viva a sua reputação.

Apesar de não o ter feito para a lista italiana, gostaria de referir, para esta lista, algumas menções honrosas: Les Enfants du Paradis (1945), L’age d’or (1930), Le Roman d’un Tricheur (1936), Mon Oncle (1958), Oscar (1967), Classe Tous Risques (1960), Les Tontons Flinguers (1963), A Man Escaped (1963), L’homme qui aimait les femmes (1977), entre outros.

15 – À bout de soufflé (Jean-Luc Gódard, 1960)

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 “À Bout de souffle”, em português, significa ‘sem ar’ ou ‘sem fôlego’ e é uma referência ao final do filme, em que a personagem principal morre sem mais fôlego, representando o caminho sem chances e o ‘beco sem saída’ em que a personagem se meteu. Jean-Luc Gódard é um daqueles realizadores que se pode ou adorar ou detestar. Ele é um dos pioneiros da Nouvelle Vague, um género que surgiu nos inícios da década de 60, e que tinha a preocupação de mostrar uma França em recuperação industrial e com novas tendências sociais. Jean-Paul Belmondo foi um dos principais proliferadores do género, contribuindo para o crescimento do género e tornando-se num dos mais reconhecidos actores do seu tempo.

O final é ainda uma das cenas do Cinema mais conhecidas e referenciadas, pelo seu impacto e influência na história do filme. Belmondo interpreta Michel, um jovem delinquente que está perdido numa sociedade, que não lhe serve. Após roubar um carro, ele mata um homem. Michel foge e torna-se num fugitivo da lei, precisando de um lugar para ficar. Ele recorre a Patricia, uma jovem estudante que sonha tornar-se jornalista. Apesar das diferenças, ela apaixona-se por ele, protegendo-o o mais possível. No entanto, o final revela um final por demais destinado e bastante compreensível, pelo menos na perspectiva de Patricia. Michel tem um final trágico, final que apesar de metafórico, é também pré-destinado e, talvez, o mais desejado para todos os intervenientes.

14 – Le Jour se Lève (Marcel Carné, 1939)

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É um dos filmes mais inovadores da história do Cinema francês, apresentando um conjunto de flashbacks que justificam o curso de eventos do filme. É realizado por Marcel Carné e tem Jean Gabin, a lenda do Cinema francês, num dos seus melhores papéis. Mostra o drama e a solidão do sofrimento humano. François, Jean Gabin, mata Valentin. François, depois disso, tranca-se no seu quarto, escondendo-se da polícia e reflectindo no que tinha cometido e as razões que o levaram a tal acto. O seu pensamento é mostrado através de uma série de flashbacks. Esta regressão é pioneira no Cinema, na altura, e uma inovação numa época que os filmes eram, em grande parte, directos e simplistas com um argumento muito básico e interpretações, muitas vezes, duvidosas. Nesta série de flashbacks, descobrimos que François esteve envolvido num perigoso triângulo amoroso, o que obrigou a cometer tal crime. Duas mulheres entram na sua vida, perturbando a vida dos que nelas estão interessados e remexendo em sentimentos sensíveis. O filme volta sempre ao presente, outra inovação, e o espectador verifica a ‘queda’ emocional de um homem que cai em desgraça, graças ao amor de duas mulheres.

13 – Plein Soleil (René Clément, 1960)

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 “Plein Soleil” é um filme sobre traição e a ganância; conta com Alain Delon no seu primeiro grande papel, interpretando Tom Ripley. Está muito bem realizador por René Clément, e é um filme, muitas vezes, subvalorizado.

Tom Ripley é enviado para Itália para convencer Philippe Greenleaf, interpretado por Maurice Ronet, a tomar conta do negócio da família. Apesar da relação deles ser muito estranha, eles conseguem relacionar-se, apesar da paixoneta que Tom tem pela namorada de Philippe, Marge, que tem um papel crucial no desenrolar do filme. Enquanto viajam por mar, no barco de Philippe, Tom começa a ser deixado de lado pelo casal de namorados, que se querem livrar dele na próxima paragem, de forma a ficarem sozinhos. Por causa disto, e por causa da sua fome por dinheiro e sentimentos que nutre por Marge, Tom mata Philippe, quando ambos estão sozinhos no barco.

Apesar de esta revelação poder ser considerada um spoiler, o que se segue é o que, verdadeiramente, faz o filme. Tom tem agora que esconder o que fez, iniciando um longo caminho de mentiras e enganos.

12 – Belle de Jour (Luis Buñuel, 1967)

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Dirigido por Luis Buñuel, “Belle de Jour” não só se tornou numa das interpretações mais polémicas de uma das melhores actrizes de todos os tempos, Catherine Deneuve, mas também celebrizou a carreira do realizador, sendo o filme um dos mais bem-sucedidos da sua filmografia. Deneuve tem aqui, provavelmente, o melhor papel da sua carreira, solidificando a sua posição na indústria cinematográfica como uma das mais lindas e mais versáteis actrizes de sempre. É um filme polémico, muito polémico, e acaba por ser uma ‘bofetada na cara’ nos mais preconceituosos e cépticos.

Deneuve interpreta uma mulher, farta da sua vida rotineira, que se torna numa prostituta durante as tardes dos dias da semana, enquanto o seu marido trabalha. Séverine Serizy é uma mulher que não tem emoções e que, de repente, se torna frígida perante os afectos do marido. Apesar de o amar, ela reprime os afectos do marido e as sucessivas tentativas para iniciarem relações sexuais. Igualmente, traumatizada por uma infância infeliz, Séverine afasta-se cada vez mais do marido. As suas fantasias envolvem o sado-masoquismo e o domínio, fantasias que nunca se atreveria a divulgar ao marido. No entanto, e apesar de não gostar da frigidez da mulher, o marido respeita as vontades da mulher, nunca sabendo o que ela faz durante o dia.

Um dia, o casal conhece um outro casal num resort de ski, Henri e Renée. Henri começa a fantasiar com Séverine, abordando-a diversas vezes, mas sendo sempre rejeitado. Apesar disso, Séverine começa a fantasiar cada vez mais, abrindo ainda mais o seu pensamento para algo louco. Através de uma amiga, Séverine toma conhecimento de que uma velha amiga de ambas trabalha num bordel, intrigando-a. Após servir o seu primeiro cliente, Séverine interessa-se pela actividade, começando a trabalhar lá, nos dias da semana durante as tardes, nunca imaginando as consequências das suas acções.

Um dos seus clientes, Marcel, um gangster, começa a ficar obcecado por ela, ameaçando divulgar a sua vida secreta ao marido. Séverine, sem querer, vai provocando Marcel que continua a ter uma atitude ameaçadora. Apesar de se arrepender, Séverine mete-se num ‘beco sem saída’. O final é confuso, podendo ter diversas interpretações. Muitos assumem que possa ser a nova fantasia de Séverine.

11 – Ascenseur pour L’échafaud (Louis Malle, 1958)

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Foi um ponto de viragem no Cinema francês, principalmente na forma como era feito, introduzindo uma nova forma de abordar o crime com mais de uma história, mas também introduzindo uma excelente fusão entre a música e a imagem. É uma enorme influência para o futuro e, por vezes, subvalorizado. A realização de Malle é fenomenal, tomando um risco enorme, que no final compensou. O filme foi muito bem recebido, colocando Jeanne Moreau, Florence, no topo das actrizes mais procuradas do Cinema francês.

Existem três histórias que interconectam no final: as histórias de Julien, Florence e do jovem casal. Julien e Florence são amantes e planeiam matar o marido de Florence para poderem viver felizes para sempre, apesar de o crime ser bem-sucedido, Julien fica preso no elevador, iniciando um conjunto de más-interpretações e infelicidades que levam ao desencontro dos dois amantes. A terceira história, a do jovem casal, interconecta todos os elementos, servindo de pretexto para a tristeza e a solidão de Florence que, por engano, interpreta os factos de forma errada. O jovem casal acaba por ter um papel crucial no desenrolar da acção, não só pelo crime que cometem, mas também pela estranha coincidência ocorrida que leva Florence ao seu ‘abismo’.

10 – Les Diaboliques (Henri-Georges Clouzot, 1955)

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É um dos filmes mais referenciados e mais preciosos para um género cinematográfico de que há memória. Juntamente com “Psycho”, este pode ser o segundo filme mais importante para o género do suspense, thriller ou de crime/mistério. Para ser verdadeiro teria que dizer que este é o filme mais importante para o género, já que inspirou “Psycho”, fascinando o autor do livro ‘Psycho’ e grande parte da crítica especialista neste género cinematográfico. No entanto, a fama de “Psycho” fá-lo ser o mais importante do género e por isso mesmo classificado, por mim, acima de “Les Diaboliques”. É, também, classificado como um filme de terror/horror, obtendo diversas classificação ao longo dos anos. Hoje em dia, é visto como uma obra-prima e talvez injustamente posicionado nesta lista. No entanto, julgo que os filmes posicionados em posição mais elevada fazem jus a essa posição.

A mulher e a amante de um homem conspiram para o matar e após o crime ser cometido uma série de acontecimentos assustadores e perturbantes começam a acontecer. O aftermath, desse mesmo crime, surpreende os espectadores e consegue manter muito viva a chama do mistério e da surpresa. A cena do homicídio é, igualmente, aterradora e perturbante, à sua maneira. Para investigar o crime, um ex-detective envolve-se na história e começa a incomodar as duas assassinas que reagem de formas diferentes, às consequências do crime por elas perpetrado. A cena em que Michel, o homem assassinado, aparece na banheira do quarto de uma das assassinas é considerada uma das mais assustadoras do Cinema, sendo outro dos motivos para que fãs de filmes de terror o queiram visualizar. O final do filme é um dos mais estranhos de sempre, ‘desmanchando’ as conclusões criadas, pelo espectador, até então.

9 – La Grande Illusion (Jean Renoir, 1937)

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É, sem dúvida alguma, uma das poucas obras-primas na história do Cinema, tendo sido lançado em 1937, com a preocupação de mostrar as tribulações dos prisioneiros de guerra da Primeira Guerra Mundial, e a tentativa dos prisioneiros em escapar e libertarem-se da prisão, metafórica e real, provocada pelo conflito. É visto como uma chamada de atenção à próxima nova guerra mundial que estava a aproximar-se, a Segunda Guerra Mundial. É, ainda, considerado um dos melhores filmes alguma vez feitos e um dos melhores filmes de guerra da história do Cinema. Vários prisioneiros estão encarcerados num campo de prisioneiros de guerra e elaboram um plano para escapar do campo. No dia da fuga, muitos dos participantes na fuga são transferidos para uma prisão de máxima segurança, dirigida pelo aristocrata Major von Rauffenstein. Três do grupo de fuga são postos na mesma cela: Tenente Maréchal, Tenente Rosenthal e Capitão Boeldieu. Este último tem uma relação muito respeitável com o Major, devido ao sangue aristocrata que ambos têm em comum, chegando até a ter longas conversas sobre o assunto.

8 – Le passion de Jeanne d’Arc (Carl Theodor Dreyer, 1928)

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É o único filme mudo da lista e um dos mais influentes para o que aí vinha na indústria cinematográfica, com o surgimento dos filmes falados, no início dos anos 30. Conta a história real do julgamento feito a Joana D’Arc, de uma perspectiva mais crítica do lado religioso e mostrando Joana D’Arc como o símbolo da libertação humana das ‘garras’ da religião mais fundamentalista. O filme é inovador na sua produção e rodagem, e reconhecido como tendo uma das melhores performances artísticas da história do Cinema. Juntamente com “Ordet”, este é o filme mais famoso do realizador dinamarquês, no entanto a diferença qualitativa e a influência na indústria favorecem a preferência por este filme.

A investigação feita por Dreyer para realizar este filme, e para o poder lançar, foi muito vasta. O foco do filme é o reporte factual e verdadeiro de um acontecimento que marcou a história francesa. O facto de ser dinamarquês fez com que muitos fossem cépticos, em relação à qualidade final do filme, no entanto não me parece que haja muita discussão sobre a qualidade do mesmo. É, claramente, um dos melhores filmes alguma vez feitos e um dos dez melhores filmes mudos de todos os tempos, marcado por uma marca de realidade muito evidente e por performances espectaculares, principalmente por parte da actriz que interpreta Joana D’Arc. Uma das principais características que esta obra-prima tem é a sua ‘crueldade’ perante os factos e a preocupação que tem em mostrar o que realmente aconteceu, por mais difícil que seja a sua aceitação. Adicionalmente, contém excelentes efeitos visuais e efeitos especiais muito dignos para a época em que foi lançado.

7 – Le Samourai (Jean-Pierre Melville, 1967)

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Melville é um especialista na arte dos thrillers, e dos filmes de crime e mistério. “Le Samourai” é a sua obra maior, contando com uma interpretação de ‘encher o olho’ por parte de um dos maiores actores de todos os tempos, Alain Delon. Delon, na altura, já era um ícone do Cinema francês, usufruindo de um estatuto inigualável aos olhos da crítica e público fã de Cinema. É, provavelmente, a melhor performance de Delon, conseguindo uma interpretação magistral e soberba, perfeita em todos os detalhes.

Ele interpreta um assassino, Jef Costello, com um muito peculiar método de trabalho. Ele é pago para matar o dono de um bar, mas é visto por diversas pessoas, que o podem identificar e entregar à polícia. No entanto, a má iluminação e a confusão da situação jogam a favor de Costello. A única testemunha capaz de o entregar à polícia é uma empregada do bar que o viu em perfeitas condições. Desde o início, Costello terá que se proteger e encobrir as pistas que o podem incriminar, tendo como inimigo, desde a primeira-hora, o inspector responsável pela investigação. Os testemunhos são inconsistentes e Costello é libertado, no entanto a perseguição só agora se inicia, tanto por parte do inspector como dos clientes que o contrataram para cometer o crime. O final é ainda hoje discutido pela sua controvérsia, visto existir outro final que seria preferível, no ponto de vista de muitos.

6 – Rififi (Jules Dassin, 1955)

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É Film-noir no seu melhor! É uma obra-prima incansável do Cinema francês e obrigatório para quem é fã de filmes de qualidade. O filme, apesar de filmado com baixo orçamento, perdura como um dos clássicos mundiais e um exemplo de como a qualidade supera os elevados orçamentos, característica típica de grande parte dos ‘filmes’ que se fazem actualmente. É muito reconhecido pela fantástica cena do roubo, com mais de trinta minutos de duração, sem falas e filmada sem cortes. Essa mesma cena é ainda um exemplo e uma referência para cenas semelhantes, que foram sendo feitas ao longo dos anos. O facto de não conter música, diálogo e ter a característica única de ter sido filmada de uma vez só, eleva este filme ainda mais.

Tony “le Stéphanois” é história antiga, foi um respeitado criminoso, no entanto os anos não foram muito favoráveis para esse estatuto se manter. Após ter sido libertado da prisão, Tony quer mostrar-se a ele próprio, cometendo um astuto e audaz assalto. Jo e Mario, dois amigos de Tony, têm em mente um plano simples, com a finalidade de assaltarem uma joalharia e roubarem algumas jóias da montra. Os dois convidam Tony a participar, no entanto Tony tem outro plano em mente: atacar a mesma joalharia e arrombar o cofre, carregado com preciosidades. César, interpretado por Jules Dassin, torna-se no último elemento desta equipa. A ex-namorada de Tony junta-se, também, a este enredo, ganhando uma importância fulcral que determina o fim trágico de um filme lendário.

5 – La Grande Vadrouille (Gérard Oury, 1966)

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É um marco do Cinema francês e um dos filmes mais vistos de todos os tempos, tendo mantido, até 2008, um recorde de bilheteiras excepcional. Conta com os lendários Louis de Funès e André Bourvil, que fazem uma das parelhas mais engraçadas que o Cinema alguma vez testemunhou. Realizado por Oury, o filme é considerado uma das mais cómicas caças ao homem alguma vez criadas, e conta com duas excelentes performances de duas das suas maiores lendas cinematográficas.

No Verão de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, os Nazis estão a ganhar a guerra. Três aviadores caem de pára-quedas sobre a capital francesa, Paris, que é agora dominada e controlada pelos Nazis. Os aviadores fogem e tentam esconder-se deles e acabam por se deparar com duas personagens muito peculiares, Augustin Bouvet, pintor de casas, e Stanislas Lefort, um maestro da Opera Nacional de Paris. Juntamente com os aviadores os dois inocentes fogem dos Nazis, com a ajuda da Resistência, de forma a ajudá-los a escapar para a zona livre.

4 – Le Salaire de la Peur (Henri-Georges Clouzot, 1953)

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Foi lançado em 1953 e é considerado um dos melhores dramas do Cinema, pessoalmente é o meu filme preferido de Clouzot, tendo-o como uma produção dramática de altíssimo nível. Há poucas personagens, quatro importantes, mas só duas são principais. Mario e Jo são os ‘heróis’ deste drama, dois camionistas que aceitam aventurar-se numa perigosa ‘missão’, em troca de um salário avultado. A juntar a estas duas personagens, Bimba e Luigi, também aceitam participar na execução deste trabalho que poderá marcar o resto das suas vidas. Os quatro homens são recrutados pela Southern Oil Company (SOC), uma empresa que trabalha na exploração petrolífera e que é vista como uma exploradora de trabalhadores, visto pagar-lhes salários baixos demais para as horas que eles trabalham. Os quatro homens são recrutados numa vila mexicana, Las Piedras. A SOC abre uma excepção na sua política de pagamentos, num trabalho que nenhum dos seus trabalhadores quer fazer, e decide recrutar pessoas exteriores à empresa.

Um fogo entra em erupção num dos campos petrolíferos da empresa, e a única forma de o extinguir é através de uma explosão de nitroglicerina. A nitroglicerina tem de ser transportada para o campo, a mais de 400 km de distância. Billy O’Brien tem de recrutar pessoas exteriores à empresa para fazer este perigoso trabalho, e recorre à pequena vila à procura de pessoas com coragem suficiente para o executar. Grande parte do filme ocorre durante o transporte da nitroglicerina, que devem ser transportados em camiões com grandes reboques. Para piorar a situação, as condições das estradas e do caminho que têm que percorrer é péssimo, dificultando a tarefa dos recrutados. Mesmo assim, eles aceitam o trabalho que é muito bem pago. Mario e Jo vão num camião, Bimba e Luigi vão no outro. O filme recria a dificuldade desta ‘missão impossível’ e como estas pessoas terão que fazer para as ultrapassar, desafiando-se a si mesmos. “Le Salaire de la Peur” é o título perfeito para o filme (trad: O Salário do Medo) que recria o medo de homens que têm que percorrer um caminho, cheio de dificuldades e fatalidades.

3 – Play Time (Jacques Tati, 1967)

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É o filme mais conhecido de Jacques Tati, reconhecido pelo público e pela crítica como uma das obras-primas da comédia da ‘nova França’ que estava a desenvolver-se de forma magnífica. Tati realiza e interpreta a sua famosa personagem, Monsieur Hulot. É um filme atrevido, à sua maneira, original e mostra uma criatividade invejável, mostrando uma França muito industrializada, que nos anos 60 se caracterizou pelo seu crescimento e constante inovação. Apesar de filmado num cenário, construído propositadamente para o efeito, a sensação de cidade é evidente, mostrando uma ideia de metrópole muito desenvolvida e industrial, influenciada pelo poder económica e tecnologia. O filme é dividido em seis sequências interligadas por duas personagens, Monsieur Hulot e Barbara, que se encontram um ao outro no decorrer do filme, cuja acção ocorre num dia inteiro. O filme é reconhecido e muito elogiado pela sua subtileza e ‘acção quase silenciosa’, típica dos filmes de Tati, com uma comédia muito visual e com pouco diálogo, à excepção de diálogo de fundo que, muitas vezes, não tem importância para o desenrolar da história.

2 – Le Trou (Jacques Becker, 1960)

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“Le Trou” é um dos filmes mais surpreendentes de sempre, pela sua criatividade, originalidade e pelo seu papel em criar uma nova base para a realização de filmes, conseguindo mostrar um argumento atrevido e intrigante até ao fim, e sendo um dos pioneiros nos filmes sobre prisões e obrigatório para os fãs de Cinema. Jacques Becker morreu semanas após o fim da filmagem deste filme. Um dos seus maiores golpes de génio, no filme, foi a utilização de pessoas que não eram actores, em alguns papéis. Por exemplo, o homem que interpreta a personagem principal, Jean Keraudy, esteve, de facto, envolvido na fuga de uma prisão, em 1947. A utilização de amadores ou de pessoas que nem sequer estão no meio cinematográfico dá aos filmes uma certa autenticidade, que muitas vezes não é conseguida por actores profissionais, a não ser que tenham uma qualidade acima da média. Tal acontece quando a personagem principal é uma criança ou um jovem, algo frequente no Cinema italiano, por exemplo.

A história é simples: quatro prisioneiros querem escapar de uma prisão e decidem escavar um túnel que começou com um buraco feito, por eles próprios, na cela em que estão encarcerados. O problema, e futura causa para uma reviravolta na história, é o aparecimento de Gaspard, um novo preso. Geo, Roland, Manu e Monseigneur decidem aceitá-lo no grupo de fuga. O genial neste filme é que o espectador vê o buraco a ser feito, em tempo real, dando-lhe um maior sentimento de realismo, apesar de, na realidade, ser muito difícil escavar aquele buraco com apenas uma ferramenta. O final é surpreendente e irónico, deixando o espectador, agradavelmente, surpreso… Pelo menos a mim deixou, quando o vi, pela primeira vez.

1 – Les 400 Coups (François Truffaut, 1959)

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O filme é o primeiro de cinco filmes do ciclo “Antoine Doinel”, que é uma das melhores séries de filmes de todos os tempos, retratando a vida de Antoine ao longo da sua juventude até a sua vida adulta, até os seus 40 anos de idade. Antoine Doinel é interpretado por Jean-Pierre Léaud, um dos actores preferidos do génio François Truffaut, que apesar de não ser muito bom tecnicamente ou dramaticamente, Léaud é, ainda assim, um dos actores mais icónicos do seu tempo. A sequência de filmes é considerada como biográfica, tanto para Truffaut como Léaud, e apresenta uma nova forma de fazer filmes que, na altura, se tornou inovadora e original.

Doinel tem 14 anos, vive em Paris com a sua Mãe e Pai. Doinel, não só tem que lidar com os problemas de crescer numa Paris cada vez mais dinâmica e em mudança, a entrar na década de 60, uma década de crescimento, mas também tem que lidar com as discussões e com os problemas dos seus pais, e por vezes com o seu ‘desinteresse’. Doinel não é um aluno exemplar nem o tenta ser. Ele sente-se rejeitado pelos seus pais e pela sociedade, começando um processo de ‘desintegração pessoal’, faltando às aulas e perdendo mais tempo a cometer pequenos crimes com o seu amigo, René.

O facto de pertencer a uma série de filmes influencia o que, mais tarde, ocorrerá. “Les 400 coups” consegue ser inovador, pela sua originalidade e audácia, e é ainda referenciado como um dos melhores filmes realistas de todos os tempos, ajudando Truffaut no seu reconhecimento mundial. É um filme obrigatório para qualquer fã do Cinema francês e essencial para conhecer as mudanças de uma sociedade e um país em recuperação moral, económica e cultural.

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