#13 Essenciais do Cinema

4 FEVEREIRO, 2017 -

Pierrot le Fou (1965)
Realizador: Jean-Luc Godard
Protagonizado por: Anna Karina e Jean-Paul Belmondo

Pierrot le Fou, cujos frames são constantemente partilhados em contas do Instagram ou expostos como “capa” no Facebook, pode não ser o melhor filme de Godard, mas é certamente um dos que reúne características que o tornam num essencial: alimenta-se das tensões da sociedade, expressa-se através da arte, grita baixinho “Nouvelle Vague!”, e revela a bagagem de um realizador que contava ainda com poucos anos de carreira.

Ferdinand Griffon, interpretado por Jean-Paul Belmondo, é um homem francês casado com uma italiana, a quem não falta poder económico e social. Farto da sua vida entediante e de estar rodeado de pessoas cujos temas de conversa são vazios de conteúdo, decide fugir com Marianne Renoir, um amor antigo.  A vida de desempregado e sem interesse rapidamente se torna numa aventura onde o tráfico de armas, a Guerra do Vietname, a vida e a morte, e a lealdade à mulher que ama, o acompanham. Esta (quase) podia ser a história de Bonnie e Clyde, mas é a história de Marianne e “Pierrot”, que na verdade se chama Ferdinand. É com a fuga do casal para a Riviera Francesa que surgem as dúvidas existenciais, a procura constante pela liberdade, a incerteza sobre o papel da mulher na sociedade, e a quase-consciência de que fugir não é solução para resolver os problemas que os assolam.

A mudança do guarda-roupa surge como tentativa de mudar de identidade, querendo deixar para trás o que até então tinha acontecido. A banda sonora não exalta acontecimentos, espelha as emoções dos atores principais – ora entusiasmo, ora medo, ora adrenalina – e vai dançando com os silêncios. É aqui que temos a confirmação da genialidade de Godard, bem como nos momentos em que faz referências diretas a outras pessoas do mundo das artes, permitindo que o espectador crie imagens mentais e faça associações- como Velásquez e Modigliani na pintura, Charles Baudelaire, James Joyce, Jules Verne, William Faulkner, Raymond Chandler e Jack London na literatura.

Categorizar este filme seria injusto. Podemos afirmar que trata de questões políticas, mas não é necessariamente um filme político; que tem momentos engraçados, mas não é necessariamente uma comédia; que tem momentos com crime e ação, mas não é obrigatoriamente um policial. É um filme que permite uma reflexão da vida e do seu valor, da morte e da sua constante desvalorização, da tensão entre os sentimentos e as palavras, da Guerra e das suas consequências. Pierrot le Fou retrata o capitalismo que já se fazia sentir nos anos 60 do século XX, mas que permaneceu com força até hoje, bem como o enfraquecimento das relações humanas. Pierrot le Fou não dá respostas ou soluções aos problemas, põe os espectadores a pensá-los, encarando-os olhos nos olhos.

“Pierrot” pode ser louco, mas é da loucura do Mundo que Godard pretende falar. Os Homens matam como se de algo natural se tratasse, as estações de rádio anunciam o número de mortes na Guerra e isso não significa nada para quem ouve – ainda que cada um daqueles homens tenha um nome, uma família, a sua personalidade e os seus gostos, estes que nunca conheceremos. A Humanidade está tão perdida em si que quase já não sabe ouvir o outro. A vida não é tão clara, lógica e organizada como nos livros.

De mão dada com À Bout de Souffle, Bande à Part, Le Mépris, Vivre sa Vie, Alphaville e outros filmes de Jean-Luc Godard, Pierrot le Fou exalta os valores de uma geração que quer fazer renascer a importância em tempos dada à cultura. Mas não se fica por aí: quer pôr a sociedade a pensar(-se).

Artigo de: Carolina Franco

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